O Google divulgou a lista com os 1.000 sites mais visitados da internet.
Facebook lidera, com 540 milhões de visitantes num único mês (abril).
Com isso, o facebook ficou com 35% dos acessos registrados na rede mundial de computadores naquele mês.
Na sequência estão Yahoo, Live e Wikipedia.
O twitter aparece na posição 18.
Para ver a relação completa, clique aqui.
E para ler a reportagem sobre o assunto feita pelo Los Angeles Times, clique aqui.
domingo, 30 de maio de 2010
quinta-feira, 27 de maio de 2010
O GOOGLE QUER DOMINAR O MUNDO?
Depois de iniciar a tarefa de digitalizar todos os livros do mundo, o Google anunciou o objetivo de fotografar e filmar todas as ruas do mundo e colocar as imagens na internet.
É o Street View.
O trabalho começou pelas principais capitais do mundo.
Quem navega pelo google maps e o google earth conhece o serviço.
É ótimo!
Um clique e somos direcionados para qualquer lugar do mundo.
Mais um clique e o mapa mostra o trajeto a ser feito, quantos quilômetros, quanto tempo de carro, a pé, de bicicleta.
A dúvida é: o que o google fará com toda essa informação?
Seremos obrigados a pagar?
Seremos obrigados a nos associar ao google?
Ou a comprar um google card que nos garantirá acesso a informações que sempre estiveram disponíveis?
Há dúvidas sobre o que o google faz com as informações coletadas diariamente das pessoas que pesquisam na internet, por exemplo.
Se eu entro no google e pesquiso um livro, uma rua, um produto, aquela operação fica registrada nos computadores da empresa, que pode utilizá-la para traçar meu perfil.
Na verdade, isso já é feito há muito tempor por praticamente todos os sites.
Toda vez que entro na Amazon me são apresentadas diversas sugestões de livros e filmes, baseadas na minhas compras anteriores.
Em algum momento essas informações serão usadas contra mim?
Na Europa, o serviço de filmagem de ruas do google (Street View) começa a sofrer restrições.
Segundo relato do jornal espanhol El País, a Áustria proibiu hoje, de forma cautelar, a circulação dos veículos do google que captam imagens das ruas.
A Comissão para Proteção da Dados da Áustria afirma que o serviço viola a privacidade das pessoas.
Além das imagens das ruas, também estão sendo capturados dados que circulam em redes de internet sem fio cujo acesso não estava protegido.
Segundo a comissão austríaca, o google precisaria de permissão para armazenar dados privados.
Por isso decidiu proibir a circulação dos carros da empresa e abrir uma investigação sobre o assunto.
A comissão também solicitou uma descrição detalhada sobre o processamento das informações armazenadas.
Uma associação privada que atua na área de proteção de dados, ARGE, denunciou o google por considerar que a gravação dos dados de navegação das redes wifi não foi feita de maneira acidental.
Aqui nos Estados Unidos, ainda segundo o El País, três congressistas pediram esclarecimentos ao google sobre o que fazem com as informações coletadas pelo Street View.
O google teria descoberto acidentalmente que os carros usados no projeto Street View estavam coletando indevidamente dados das redes wifi depois que o governo alemão perguntou se isso estava acontecendo.
De acordo com o próprio google, mais de 600 gigabytes de dados foram coletados pelos carros do Street View em mais de 30 países.
Para ler a reportagem completa do El País, clique aqui.
É o Street View.
O trabalho começou pelas principais capitais do mundo.
Quem navega pelo google maps e o google earth conhece o serviço.
É ótimo!
Um clique e somos direcionados para qualquer lugar do mundo.
Mais um clique e o mapa mostra o trajeto a ser feito, quantos quilômetros, quanto tempo de carro, a pé, de bicicleta.
A dúvida é: o que o google fará com toda essa informação?
Seremos obrigados a pagar?
Seremos obrigados a nos associar ao google?
Ou a comprar um google card que nos garantirá acesso a informações que sempre estiveram disponíveis?
Há dúvidas sobre o que o google faz com as informações coletadas diariamente das pessoas que pesquisam na internet, por exemplo.
Se eu entro no google e pesquiso um livro, uma rua, um produto, aquela operação fica registrada nos computadores da empresa, que pode utilizá-la para traçar meu perfil.
Na verdade, isso já é feito há muito tempor por praticamente todos os sites.
Toda vez que entro na Amazon me são apresentadas diversas sugestões de livros e filmes, baseadas na minhas compras anteriores.
Em algum momento essas informações serão usadas contra mim?
Na Europa, o serviço de filmagem de ruas do google (Street View) começa a sofrer restrições.
Segundo relato do jornal espanhol El País, a Áustria proibiu hoje, de forma cautelar, a circulação dos veículos do google que captam imagens das ruas.
A Comissão para Proteção da Dados da Áustria afirma que o serviço viola a privacidade das pessoas.
Além das imagens das ruas, também estão sendo capturados dados que circulam em redes de internet sem fio cujo acesso não estava protegido.
Segundo a comissão austríaca, o google precisaria de permissão para armazenar dados privados.
Por isso decidiu proibir a circulação dos carros da empresa e abrir uma investigação sobre o assunto.
A comissão também solicitou uma descrição detalhada sobre o processamento das informações armazenadas.
Uma associação privada que atua na área de proteção de dados, ARGE, denunciou o google por considerar que a gravação dos dados de navegação das redes wifi não foi feita de maneira acidental.
Aqui nos Estados Unidos, ainda segundo o El País, três congressistas pediram esclarecimentos ao google sobre o que fazem com as informações coletadas pelo Street View.
O google teria descoberto acidentalmente que os carros usados no projeto Street View estavam coletando indevidamente dados das redes wifi depois que o governo alemão perguntou se isso estava acontecendo.
De acordo com o próprio google, mais de 600 gigabytes de dados foram coletados pelos carros do Street View em mais de 30 países.
Para ler a reportagem completa do El País, clique aqui.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
PARA RESERVAR, US$ 50
Ainda não conseguimos comprar os telefones celulares porque não temos documentos emitidos pelo governo americano.
Aliás, sem o tal do Social Security Number, que seria equivalente ao nosso CPF, praticamente nada se faz aqui.
Outra encrenca enfrentada pelos recém-chegados é a falta de histórico de crédito.
O histórico de crédito é formado ao longo da vida de consumo da pessoa.
Quando se financia um carro, uma casa, quando se paga as faturas do cartão de crédito em dia etc.
Tudo isso vai formando o histórico de crédito da pessoa.
Para comprar um carro, a primeira coisa que o vendedor pergunta é se temos crédito.
Se não tiver, ele nem te atende.
A menos que a compra seja feita à vista.
Cartão de crédito, a mesma coisa.
Os bancos e as administradoras checam o seu histórico de crédito.
Se houver registro de algum atraso de pagamento, esqueça.
Para quem muda para cá e precisa começar a vida, é mesmo uma chateação.
Não importa se foi bom pagador no seu país.
O que vale são os registros daqui.
A pessoa tem que fazer alguma compra parcelada - numa loja que aceite, claro - e só depois de um tempo, quando tiver um registro de crédito mínimo, conseguirá fazer outras compras.
No caso do telefone que estamos tentando comprar é a mesma coisa.
As operadoras exigem histórico de crédito.
Vencida essa etapa, com apresentação de declarações de renda, endereço, carta da empresa etc., esbarra-se na outra barreira do documento norte-americano.
Um grande nó com várias pontas para exercitar a paciência.
Mas comecei a contar tudo isso por causa do telefone que me interessei.
É o tal do Droid Incredible.
Está esgotado em tudo quanto é lugar.
Até na Amazon, que anuncia previsão de entrega num prazo entre seis e oito semanas.
Hoje passamos numa Best Buy, grande rede de eletroeletrônicos, que teria o aparelho.
Nada: esgotado.
O vendedor perguntou se queríamos deixar o nome na lista de espera.
Segundo ele, US$ 50 por aparelho reservado.
Aliás, sem o tal do Social Security Number, que seria equivalente ao nosso CPF, praticamente nada se faz aqui.
Outra encrenca enfrentada pelos recém-chegados é a falta de histórico de crédito.
O histórico de crédito é formado ao longo da vida de consumo da pessoa.
Quando se financia um carro, uma casa, quando se paga as faturas do cartão de crédito em dia etc.
Tudo isso vai formando o histórico de crédito da pessoa.
Para comprar um carro, a primeira coisa que o vendedor pergunta é se temos crédito.
Se não tiver, ele nem te atende.
A menos que a compra seja feita à vista.
Cartão de crédito, a mesma coisa.
Os bancos e as administradoras checam o seu histórico de crédito.
Se houver registro de algum atraso de pagamento, esqueça.
Para quem muda para cá e precisa começar a vida, é mesmo uma chateação.
Não importa se foi bom pagador no seu país.
O que vale são os registros daqui.
A pessoa tem que fazer alguma compra parcelada - numa loja que aceite, claro - e só depois de um tempo, quando tiver um registro de crédito mínimo, conseguirá fazer outras compras.
No caso do telefone que estamos tentando comprar é a mesma coisa.
As operadoras exigem histórico de crédito.
Vencida essa etapa, com apresentação de declarações de renda, endereço, carta da empresa etc., esbarra-se na outra barreira do documento norte-americano.
Um grande nó com várias pontas para exercitar a paciência.
Mas comecei a contar tudo isso por causa do telefone que me interessei.
É o tal do Droid Incredible.
Está esgotado em tudo quanto é lugar.
Até na Amazon, que anuncia previsão de entrega num prazo entre seis e oito semanas.
Hoje passamos numa Best Buy, grande rede de eletroeletrônicos, que teria o aparelho.
Nada: esgotado.
O vendedor perguntou se queríamos deixar o nome na lista de espera.
Segundo ele, US$ 50 por aparelho reservado.
QUEM LÊ TANTA NOTÍCIA?
Twitter, facebook, MySpace, Orkut, jornais e revistas em versões impressas e online, publicações apenas online, blogs.
Todo mundo achando que está mudando o mundo (inclusive eu!) com comentários brilhantes.
Quem consegue ler um jornal inteiro por dia?
Quem consegue ler uma reportagem até o final?
Mas como já dizia o Caetano em 1967, afinal, quem lê tanta notícia?
Em jornal até acho mais fácil.
No computador, é preciso não abrir outras janelas e desativar msn, e-mail etc. para não ser bombardeado com a quantidade de informações que pipocam na tela.
E ainda tem que ler o último relatório com informações impactantes sobre o destino do universo, comprar aquele livro que acabou de sair e que todo mundo já leu, tem que estudar línguas, malhar, fazer refeições, trabalhar e, se der tempo, viver um pouquinho.
Todo mundo achando que está mudando o mundo (inclusive eu!) com comentários brilhantes.
Quem consegue ler um jornal inteiro por dia?
Quem consegue ler uma reportagem até o final?
Mas como já dizia o Caetano em 1967, afinal, quem lê tanta notícia?
Em jornal até acho mais fácil.
No computador, é preciso não abrir outras janelas e desativar msn, e-mail etc. para não ser bombardeado com a quantidade de informações que pipocam na tela.
E ainda tem que ler o último relatório com informações impactantes sobre o destino do universo, comprar aquele livro que acabou de sair e que todo mundo já leu, tem que estudar línguas, malhar, fazer refeições, trabalhar e, se der tempo, viver um pouquinho.
O JORNALISMO E AS PALAVRAS DO PODER
O correspondente do jornal britânico The Independent no Oriente Médio, Robert Fisk, fez o seguinte discurso no quinto fórum anual da emissora árabe Al Jazeera, em 23 de maio.
Li o texto no blog Vi o Mundo, que está relacionado na seção Sítios que valem a pena.
Journalism and ‘the words of power’
By Robert Fisk
Poder e mídia não são apenas relações amigáveis entre jornalistas e líderes políticos, entre editores e presidentes. Não são apenas sobre as relações parasitárias e de osmose entre repórteres supostamente honrados e o eixo do poder que existe entre a Casa Branca, o Departamento de Estado e o Pentágono, a Downing Street e os ministérios das Relações Exteriores e da Defesa [britânicos]. No contexto Ocidental, a relação entre poder e mídia diz respeito a palavras — é sobre o uso de palavras. É sobre semântica. É sobre o emprego de frases e suas origens. E é sobre o mau uso da História e sobre nossa ignorância da História. Mais e mais, hoje em dia, nós jornalistas nos tornamos prisioneiros da linguagem do poder.
Isso acontece porque não nos preocupamos com a linguística? É porque os laptops ‘corrigem’ nossa ortografia, ‘limpam’ nossa gramática de forma a que nossas sentenças frequentemente se tornem idênticas às de nossos líderes? É por isso que os editoriais de jornais hoje em dia soam como se fossem discursos políticos?
Deixem-me demonstrar o que quero dizer.
Por duas décadas as lideranças dos Estados Unidos e do Reino Unido — e dos israelenses e palestinos — tem usado as palavras “processo de paz” para definir o acordo sem futuro, inadequado e desonroso que permite aos Estados Unidos e a Israel fazerem o que bem entenderem com os pedaços de terra que deveriam ser dados a um povo sob ocupação.
Eu primeiro me perguntei sobre esta expressão e sobre a origem dela na época de Oslo [Nota do Viomundo: A capital da Noruega foi sede das negociações que resultaram num tratado entre israelenses e palestinos celebrado na Casa Branca com as presenças do presidente Bill Clinton, do líder palestino Yasser Arafat e do primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin, tratado que na prática fracassou] — embora a gente se esqueça facilmente que as rendições secretas de Oslo tenham sido, em si, uma conspiração sem qualquer base legal. Pobre e velha Oslo, sempre pensei! O que Oslo fez para merecer isso? Foi o acordo da Casa Branca que selou o tratado dúbio e absurdo — pelo qual os refugiados, as fronteiras, as colônias israelenses e mesmo o plano de metas foram adiados até que não pudessem mais ser negociados.
E como nos esquecemos facilmente do gramado da Casa Branca — embora, sim, lembremos das imagens — no qual Clinton citou o Corão e Arafat escolheu dizer: “Obrigado, obrigado, obrigado sr. presidente”. E como chamamos esse embuste depois? Sim, foi um ‘momento histórico’! Foi? Foi mesmo?
Vocês se lembram como Arafat se referia a ele? “A paz dos bravos”. Mas não me lembro que algum de nós tenha apontado que a frase “paz dos bravos” foi usada originalmente pelo general De Gaulle no fim da guerra [de independência] da Argélia. Os franceses perderam a guerra na Argélia. Nós não nos demos conta desta ironia extraordinária.
Vemos isso de novo, hoje. Nós, jornalistas ocidentais — usados outra vez mais pelos nossos líderes — temos noticiado como os felizes generais do Afeganistão tem dito que a guerra lá só pode ser vencida como parte de uma campanha “pelos corações e mentes” [dos afegãos]. Ninguém fez aos generais a pergunta óbvia: esta mesma frase não foi usada em relação aos civis vietnamitas na guerra do Vietnã? E nós não — nós, o Ocidente – não perdemos a guerra do Vietnã?
Ainda assim nós, jornalistas ocidentais, estamos usando — no Afeganistão — a frase “corações e mentes” em nossas reportagens, como se fosse uma frase nova no dicionário e não um símbolo de derrota usado pela segunda vez em quatro décadas, em alguns casos usada pelos mesmos soldados que venderam esta bobagem — quando eram mais novos — no Vietnã.
Olhem agora para as palavras que nós recentemente ‘adotamos’ vindas dos militares dos Estados Unidos.
Quando nós ocidentais descobrimos que “nossos” inimigos — a Al-Qaeda, por exemplo, ou o talibã — explodiram mais bombas e patrocinaram mais ataques do que o esperado, chamamos isso de “um salto da violência”. Ah, sim, um ’salto’.
Um ’salto’ de violência, senhoras e senhores, foi uma frase primeiro usada, de acordo com meus arquivos, por um general na Zona Verde de Bagdá em 2004 [inicialmente quartel-general da ocupação dos Estados Unidos no Iraque]. No entanto, nós usamos a frase agora, discutimos a partir dela, replicamos como se fosse nossa. Estamos usando, literalmente, uma expressão criada para nós pelo Pentágono. Um “salto”, naturalmente, significa algo que sobe rapidamente e que em seguida cai rapidamente. Um ’salto’, assim sendo, evita o uso do terrível “aumento da violência” — já que um aumento, senhoras e senhores, pode não ser seguido por uma redução posteriormente.
De novo, quando os generais dos Estados Unidos se referem a um repentino aumento de suas forças para um ataque contra Fallujah ou o centro de Bagdá ou Kandahar — um movimento em massa de soldados trazidos para países muçulmanos aos milhares — eles chamam isso de ’surge’. E um ’surge’, como um tsunami ou qualquer outro fenômeno natural, pode ter efeitos devastadores. O que esses ’surges’ são, na verdade — para usar as palavras verdadeiras do jornalismo sério — são reforços. E reforços são mandados para as guerras quando os exércitos estão perdendo essas guerras. Mas nossos meninos e meninas nos jornais e nas emissoras de TV estão falando em ’surges’ sem atribuir isso ao Pentágono! O Pentágono ganha de novo.
Enquanto isso, o ‘processo de paz’ desabou. Assim nossos líderes — nós gostamos de chamá-los de ‘jogadores-chave’ — estão tentando de novo. Assim o processo tem de ser colocado ‘nos trilhos’. Era um trem, como vocês notaram. Os vagões tinham saído dos trilhos. E assim o trem tem de ser posto de novo ‘nos trilhos’. Foi o governo Clinton o primeiro a usar a frase, depois os israelenses, depois a BBC. Mas havia um problema quando o ‘processo de paz’ foi colocado de novo ‘nos trilhos’ — e ainda assim não andou. E então produzimos o ‘mapa do caminho’ — tocado por um quarteto liderado pelo nosso amigo de Deus, Tony Blair, ao qual — em uma obscenidade da História — agora nos referemimos como ‘enviado da paz’.
Mas o ‘mapa do caminho’ não está funcionando. E agora, notem, o velho ‘processo de paz’ está de volta aos jornais e às telas de TV. Dois dias atrás, na CNN, um destes velhos chatos que os meninos e meninas da TV chamam de ‘experts’ — falarei deles em um momento — nos disse de novo que o ‘processo de paz’ está sendo colocado ‘nos trilhos’ por causa do início de ‘conversas indiretas’ entre israelenses e palestinos.
Senhoras e senhores, não são apenas clichês — isso é jornalismo absurdo. Não existe mais batalha entre o poder e a mídia. Através da linguagem, nós nos tornamos eles. Talvez o problema advenha de que a gente não pensa mais por conta própria por não ler livros. Os árabes ainda lêem livros — não estou falando aqui sobre a taxa de analfabetismo em países árabes — mas não estou certo de que no Ocidente a gente ainda leia livros. Eu geralmente mando mensagens pelo telefone e descubro que tenho de passar dez minutos repetindo à secretária algumas centenas de palavras. Elas não sabem soletrar.
Eu estava no avião um dia destes, voando de Paris a Beirute — um vôo de cerca de 3 horas e 45 minutos — e a mulher sentada ao lado estava lendo um livro em francês sobre a história da Segunda Guerra Mundial. Ela mudava de página depois de alguns segundos. Acabou o livro antes do pouso em Beirute! E de repente me dei conta de que ela não estava lendo o livro, estava surfando nas páginas! Tinha perdido a habilidade do que costumo chamar de ‘leitura profunda’. Meramente usamos as primeiras palavras que aparecem…
Deixe-me mostrar outro pedaço da covardia midiática que faz os meus dentes de 63 anos de idade rangerem depois de 34 anos comendo humus e tahina no Oriente Médio.
Somos informados, em tantas análises, que precisamos lidar no Oriente Médio com ‘narrativas que competem’. Que meigo. Não há justiça, nem injustiça, apenas algumas pessoas que nos contam histórias diferentes. ‘Narrativas que competem’ agora aparece regularmente na imprensa britânica. A frase é uma espécie — ou subespécie — da falsa linguagem da antropologia. Nega a possibilidade de que um grupo de pessoas — no Oriente Médio, por exemplo — seja ocupado, enquanto outro grupo de pessoas promove a ocupação. Novamente, não há justiça, injustiça, não-opressão ou opressão, apenas amigáveis ‘narrativas que competem’, um jogo de futebol, se quiserem, um campo neutro já que os dois lados estão — não estão? — ‘em competição’. E os dois lados merecem tempo igual em todas as reportagens.
E assim uma ‘ocupação’ pode se tornar uma ‘disputa’. E assim um ‘muro’ pode se tornar uma ‘cerca’ ou uma ‘barreira de segurança’. E assim a colonização israelense de terra árabe contrária a todas as leis internacionais se torna ‘acampamentos’ ou ‘postos’ ou ‘vizinhanças judaicas’.
Vocês não vão se surpreender ao descobrir que foi Colin Powell, em seu estrelato sem poder no posto de secretário de Estado de George W. Bush, que disse a diplomatas americanos no Oriente Médio que eles deveriam se referir à terra ocupada dos palestinos como ‘terra disputada’ — o que foi bom o suficiente para a maior parte da mídia americana.
Fiquem de olho na ‘narrativa que compete’, senhoras e senhores. Não há ‘narrativas que competem’, naturalmente, entre os militares dos Estados Unidos e o talibã. Quando houver, no entanto, vocês saberão que o Ocidente perdeu. Mas vou dar um exemplo pessoal para demonstrar como as ‘narrativas que competem’ evaporam.
No ano passado, fiz uma palestra em Toronto para marcar os 95 anos do genocídio armênio de 1915, o assassinato em massa deliberado de um milhão e meio de cristãos armênios por milícias e pelo exército otomano da Turquia. Antes da minha palestra, fui entrevistado na tv canadense, a CTV, que também é dona do jornal Toronto Globe and Mail. Desde o início, notei que minha entrevistadora tinha um problema. O Canadá tem uma grande comunidade armênia. Mas Toronto também tem uma grande comunidade turca. E os turcos, como o Globe and Mail sempre diz, ‘negam calorosamente’ que tenha havido genocídio. E assim a entrevistadora chamou o genocídio de “massacres mortais”.
Naturalmente que notei este problema específico de cara. Ela não podia chamar os massacres de ‘genocídio’ porque a comunidade turca se sentiria ultrajada. Mas, igualmente, ela sentiu que ‘massacre’ sozinho — especialmente com as fotos cruéis que serviam de cenário no estúdio, de armênios mortos — não seria suficiente para definir um milhão e meio de seres humanos assassinados. Daí os ‘massacres mortais’. Que estranho!!! Se existem massacres ‘mortais’, existem massacres que não são ‘mortais’, nos quais as vítimas saem com vida? Foi tautologia ridícula.
No fim, contei este pequeno caso de covardia jornalística na palestra, para minha audiência armênia, na qual também havia executivos da CTV. Uma hora depois de minha palestra, o armênio que promoveu o encontro recebeu uma mensagem de texto de um repórter da CTV. “Cagar na CTV não tinha nada a ver”, o repórter reclamou. Duvido, pessoalmente, que a palavra ‘cagar’ seja usada na CTV. Mas ‘genocídio’ também não é. Foi assim que as ‘narrativas que competem’ explodiram.
Sim, o uso da linguagem do poder — de suas palavras e frases — é comum entre nós. Quantas vezes ouvi de repórteres ocidentais sobre ‘combatentes estrangeiros’ no Afeganistão? Eles estão se referindo, naturalmente, a vários grupos árabes que supostamente ajudam o talibã. Ouvimos a mesma história no Iraque. Sauditas, jordanianos, palestinos, combatentes chechenos, naturalmente. Os generais os chamavam de ‘combatentes estrangeiros’. E assim, imediatamente, fizemos o mesmo. Chamá-los de ‘combatentes estrangeiros’ significava que são uma força de invasão. Mas nunca — nunca — ouvi uma estação de TV ocidental se referir ao fato de que existem pelo menos 150 mil ‘combatentes estrangeiros’ no Afeganistão. E que a maioria deles, senhoras e senhores, veste uniformes dos Estados Unidos e da Otan!
Da mesma forma, a frase perniciosa ‘Af-Pak’ — racista e politicamente desonesta como é — é usada por repórteres quando foi originalmente uma criação do Departamento de Estado, no dia em que Richard Holbrooke foi indicado mediador dos Estados Unidos no Afeganistão e no Paquistão. Mas a frase evita o uso da palavra ‘Índia’, cuja influência no Afeganistão e cuja presença no Afeganistão é parte vital da história. Além disso, ‘Af-Pak’ — ao apagar a Índia — eficazmente apaga toda a crise de Kashmir do conflito no sudeste da Ásia. E assim o Paquistão ficou sem qualquer papel na política dos Estados Unidos para Kashmir — afinal, Holbrooke foi nomeado para o ‘Af-Pak’, especificamente proibido de discutir Kashmir. E assim a frase ‘Af-Pak’, que nega totalmente a tragédia do Kashmir — muitas ‘narrativas que competem’, quem sabe? — significa que quando nós jornalistas usamos a mesma frase, ‘Af-Pak’ — que com certeza foi criada para nós — estamos fazendo o trabalho do Departamento de Estado americano.
Agora olhemos para a História. Nossos leitores amam História. Mais que tudo, eles amam a Segunda Guerra Mundial. Em 2003, George W. Bush pensou que era Churchill e George W. Bush. Na verdade, Bush gastou a guerra do Vietnã protegendo os céus do Texas dos vietcongs [Nota do Viomundo: Durante a guerra do Vietnã, Bush filho evitou sua convocação servindo à Força Aérea americana em uma base do Texas].
Mas agora, em 2003, Bush estava enfrentando os ‘apaziguadores’ que não queriam guerra com o Saddam que era, naturalmente, o “Hitler do [rio] Tigre”. Os ‘apaziguadores’ eram os britânicos que não queriam enfrentar a Alemanha nazista em 1938. Blair, naturalmente, também experimentou a casaca de Churchill. Ele não era ‘apaziguador’. Os Estados Unidos eram os aliados mais antigo do Reino Unido — Blair proclamou — e Bush e Blair lembraram aos jornalistas que os Estados Unidos estavam ombro a ombra com o Reino Unido quando este precisou de ajuda, em 1940.
Mas nada disso era verdade.
O mais antigo aliado do Reino Unido não foram os Estados Unidos. Foi Portugal, um estado fascista que ficou neutro durante a Segunda Guerra. Somente meu jornal, o Independent, notou isso.
Nem os Estados Unidos lutaram ao lado do Reino Unido na hora que os britânicos precisaram, em 1940, quando Hitler ameaçou invasão e a força aérea alemã bombardeou Londres. Não, em 1940 os Estados Unidos aproveitavam um período lucrativo de neutralidade — e não se juntaram à guerra do Reino Unido a não ser depois que o Japão atacou a base de Pearl Harbor em dezembro de 1941. Doeu!
Em 1956, li outro dia, Eden chamou Nasser de ‘Mussolini do Nilo’. Um erro. Nasser era amado pelos árabes, não odiado como Mussolini era pela maioria dos africanos, especialmente os líbios árabes. O paralelo com Mussolini não foi questionado pela mídia britânica. E todos sabemos o que aconteceu em Suez em 1956.
[Nota do Viomundo: Anthony Eden foi ministro britânico das Relações Exteriores; Gamal Abdel Nasser, líder nacionalista do Egito; em 1956 Nasser nacionalizou o canal de Suez, ao que se seguiu um ataque militar de Reino Unido, França e Israel, que só fracassou politicamente por pressão de Estados Unidos e União Soviética]
Sim, quando se trata de História, nós jornalistas simplesmente deixamos que presidentes e primeiros-ministros nos dêem um balão.
Hoje, no momento em que estrangeiros tentam levar comida e combustível pelo mar a palestinos famintos em Gaza, nós jornalistas deveríamos relembrar nossos telespectadores e leitores de um dia faz-tempo quando os Estados Unidos e o Reino Unido sairam em socorro de um povo cercado, levando comida e combustível — foi assim que alguns de nossos próprios militares morreram — para uma população faminta.
Aquela população tinha sido cercada por uma cerca construída por um exército brutal que queria torná-los submissos pela fome. O exército era o russo. A cidade era Berlim. O muro viria mais tarde. O povo ajudado tinha sido nosso inimigo há apenas três anos. Ainda assim fizemos uma ponte-aérea para salvá-los. Agora olhem para Gaza. Que jornalista ocidental — e amamos paralelos históricos — já mencionou Berlim de 1948 no contexto de Gaza?
Olhem para exemplos mais recentes. Saddam tinha ‘armas de destruição em massa’ — dá para encaixar ‘WMD’ numa manchete — mas naturalmente, ele não tinha e a imprensa americana passou por momentos embaraçosos de auto-condenação. Como pudemos ser enganados, o New York Times se perguntou? O jornal concluiu que não tinha desafiado suficientemente o governo Bush.
E agora o mesmo jornal está suavemente — muito suavemente — batendo os bumbos de guerra no Irã. O Irã está trabalhando com ‘WMD’. E depois da guerra, se houver guerra, haverá de novo a auto-condenação, se não houver projetos de armas nucleares no Irã.
Ainda assim o lado mais perigoso de nosso uso da semântica de guerra, nosso uso das palavras do poder — embora não seja uma guerra, já que nós nos rendemos — é que isso nos isola de nossos telespectadores e leitores. Eles não são estúpidos. Eles entendem as palavras e, em muitos casos — temo — melhor que nós. Eles sabem que estamos afogando nosso vocabulário na linguagem dos generais e presidentes, das assim-chamadas elites, na arrogância dos experts do Brookings Institute, ou daqueles da Rand Corporation ou o que eu chamo de ‘tink thanks’. Então nós nos tornanos parte desta linguagem. Aqui estão, por exemplo, algumas palavras perigosas:
- power players
- ativismo
- atores não-estatais
- jogadores-chave
- jogadores geoestratégicos
- narrativas
- jogadores externos
- processo de paz
- soluções significativas
- Af-Pak
- agentes de mudanças (quem quer que sejam estas criaturas sinistras)
Não sou um convidado regular da Al Jazeera. Isso me dá liberdade para falar. Alguns anos atrás, quando Wadah Khanfar (agora diretor-geral da Al Jazeera) era o homem da emissora em Bagdá, os militares dos Estados Unidos começaram uma campanha de boatos contra o escritório de Wadah, alegando — mentirosamente — que a Al Jazeera fazia o jogo da Al Qaeda porque estava recebendo vídeos de ataques contra forças dos Estados Unidos. Fui a Fallujah para checar isso. Wadah estava 100% correto. A Al Qaeda estava entregando os vídeos de suas emboscadas sem qualquer aviso, colocando nas caixas de correio. Os americanos estavam mentindo. O Wadah, naturalmente, está pensando o que virá em seguida…
Bem, devo dizer a vocês, senhoras e senhores, que todas as ‘palavras perigosas’ que acabei de ler para vocês — de jogadores-chave a narrativas a processo de paz a Af-Pak — estão no programa de nove páginas da Al Jazeera para este fórum. Não estou condenando a Al Jazeera por isso, senhoras e senhores. Porque este vocabulário não é adotado como resultado de aliança política. É uma infecção da qual todos sofremos. Eu mesmo usei ‘processo de paz’ algumas vezes, embora entre aspas, o que não dá para fazer na TV, mas sim, é um contágio.
E quando usamos estas palavras nós nos tornamos aliados do poder e das elites que mandam no mundo sem medo de serem desafiadas pela mídia. A Al Jazeera fez mais que qualquer rede de televisão que conheço para desafiar a autoridade, tanto no Oriente Médio quanto no Ocidente. (Não estou usando ‘desafio’ como ‘problema’, mas como ‘enfrento muitos desafios’, dito pelo general McCrystal).
Como escapamos desta doença? Fiquem de olho nos corretores de ortografia de seus laptops, nos sonhos dos subeditores com palavras de uma sílaba, parem de usar a Wikipedia. E leiam livros, com páginas de papel, que significam leitura profunda. Livros de História, especialmente.
A Al Jazeera está fazendo uma boa cobertura da frota — o comboio de barcos — que vai a Gaza. Não acredito que sejam um bando de anti-israelenses. Penso que este comboio internacional está a caminho porque as pessoas a bordo dos navios — de todo o mundo — estão tentando fazer o que líderes supostamente humanitários deixaram de fazer. Estão levando comida e combustível e equipamento hospitalar para aqueles que sofrem. Em qualquer outro contexto, os Obamas e os Sarkozys e os Camerons estariam competindo para mandar fuzileiros navais, marinheiros reais ou forças francesas com ajuda humanitária — como Clinton fez na Somália. O divino Blair não acreditava em ‘intervenção’ humanitária em Kosovo e Serra Leoa?
Em circunstâncias normais, o Blair colocaria o pé sobre a fronteira. Mas não. Não ousamos ofender Israel. E assim pessoas comuns estão tentando fazer o que os líderes não fizeram. Os líderes fracassaram. E a mídia? Estamos mostrando imagens de documentários da ponte aérea que salvou Berlim? Ou das tentativas de Clinton de resgatar pessoas que morriam de fome na Somália ou da ‘intervenção’humanitária de Blair nos Balcãs, simplesmente para relembrar nossos leitores e telespectadores — e aqueles pessoas naqueles barcos — que isso é hipocrisia em escala maciça?
O diabo que estamos! Nós preferimos ‘narrativas que competem’. Poucos políticos querem que a viagem até Gaza seja completada — seja o seu fim bem sucedido, uma farsa ou trágico. Nós acreditamos no ‘processo de paz’, no ‘mapa do caminho’. Mantenham a ‘cerca’ em torno dos palestinos. Deixem os ‘jogadores-chave’ encontrar uma solução. Senhoras e senhores, não sou seu ‘key-speaker’ nesta manhã. Sou seu convidado e agradeço pela paciência que tiveram em me ouvir.
Li o texto no blog Vi o Mundo, que está relacionado na seção Sítios que valem a pena.
Journalism and ‘the words of power’
By Robert Fisk
Poder e mídia não são apenas relações amigáveis entre jornalistas e líderes políticos, entre editores e presidentes. Não são apenas sobre as relações parasitárias e de osmose entre repórteres supostamente honrados e o eixo do poder que existe entre a Casa Branca, o Departamento de Estado e o Pentágono, a Downing Street e os ministérios das Relações Exteriores e da Defesa [britânicos]. No contexto Ocidental, a relação entre poder e mídia diz respeito a palavras — é sobre o uso de palavras. É sobre semântica. É sobre o emprego de frases e suas origens. E é sobre o mau uso da História e sobre nossa ignorância da História. Mais e mais, hoje em dia, nós jornalistas nos tornamos prisioneiros da linguagem do poder.
Isso acontece porque não nos preocupamos com a linguística? É porque os laptops ‘corrigem’ nossa ortografia, ‘limpam’ nossa gramática de forma a que nossas sentenças frequentemente se tornem idênticas às de nossos líderes? É por isso que os editoriais de jornais hoje em dia soam como se fossem discursos políticos?
Deixem-me demonstrar o que quero dizer.
Por duas décadas as lideranças dos Estados Unidos e do Reino Unido — e dos israelenses e palestinos — tem usado as palavras “processo de paz” para definir o acordo sem futuro, inadequado e desonroso que permite aos Estados Unidos e a Israel fazerem o que bem entenderem com os pedaços de terra que deveriam ser dados a um povo sob ocupação.
Eu primeiro me perguntei sobre esta expressão e sobre a origem dela na época de Oslo [Nota do Viomundo: A capital da Noruega foi sede das negociações que resultaram num tratado entre israelenses e palestinos celebrado na Casa Branca com as presenças do presidente Bill Clinton, do líder palestino Yasser Arafat e do primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin, tratado que na prática fracassou] — embora a gente se esqueça facilmente que as rendições secretas de Oslo tenham sido, em si, uma conspiração sem qualquer base legal. Pobre e velha Oslo, sempre pensei! O que Oslo fez para merecer isso? Foi o acordo da Casa Branca que selou o tratado dúbio e absurdo — pelo qual os refugiados, as fronteiras, as colônias israelenses e mesmo o plano de metas foram adiados até que não pudessem mais ser negociados.
E como nos esquecemos facilmente do gramado da Casa Branca — embora, sim, lembremos das imagens — no qual Clinton citou o Corão e Arafat escolheu dizer: “Obrigado, obrigado, obrigado sr. presidente”. E como chamamos esse embuste depois? Sim, foi um ‘momento histórico’! Foi? Foi mesmo?
Vocês se lembram como Arafat se referia a ele? “A paz dos bravos”. Mas não me lembro que algum de nós tenha apontado que a frase “paz dos bravos” foi usada originalmente pelo general De Gaulle no fim da guerra [de independência] da Argélia. Os franceses perderam a guerra na Argélia. Nós não nos demos conta desta ironia extraordinária.
Vemos isso de novo, hoje. Nós, jornalistas ocidentais — usados outra vez mais pelos nossos líderes — temos noticiado como os felizes generais do Afeganistão tem dito que a guerra lá só pode ser vencida como parte de uma campanha “pelos corações e mentes” [dos afegãos]. Ninguém fez aos generais a pergunta óbvia: esta mesma frase não foi usada em relação aos civis vietnamitas na guerra do Vietnã? E nós não — nós, o Ocidente – não perdemos a guerra do Vietnã?
Ainda assim nós, jornalistas ocidentais, estamos usando — no Afeganistão — a frase “corações e mentes” em nossas reportagens, como se fosse uma frase nova no dicionário e não um símbolo de derrota usado pela segunda vez em quatro décadas, em alguns casos usada pelos mesmos soldados que venderam esta bobagem — quando eram mais novos — no Vietnã.
Olhem agora para as palavras que nós recentemente ‘adotamos’ vindas dos militares dos Estados Unidos.
Quando nós ocidentais descobrimos que “nossos” inimigos — a Al-Qaeda, por exemplo, ou o talibã — explodiram mais bombas e patrocinaram mais ataques do que o esperado, chamamos isso de “um salto da violência”. Ah, sim, um ’salto’.
Um ’salto’ de violência, senhoras e senhores, foi uma frase primeiro usada, de acordo com meus arquivos, por um general na Zona Verde de Bagdá em 2004 [inicialmente quartel-general da ocupação dos Estados Unidos no Iraque]. No entanto, nós usamos a frase agora, discutimos a partir dela, replicamos como se fosse nossa. Estamos usando, literalmente, uma expressão criada para nós pelo Pentágono. Um “salto”, naturalmente, significa algo que sobe rapidamente e que em seguida cai rapidamente. Um ’salto’, assim sendo, evita o uso do terrível “aumento da violência” — já que um aumento, senhoras e senhores, pode não ser seguido por uma redução posteriormente.
De novo, quando os generais dos Estados Unidos se referem a um repentino aumento de suas forças para um ataque contra Fallujah ou o centro de Bagdá ou Kandahar — um movimento em massa de soldados trazidos para países muçulmanos aos milhares — eles chamam isso de ’surge’. E um ’surge’, como um tsunami ou qualquer outro fenômeno natural, pode ter efeitos devastadores. O que esses ’surges’ são, na verdade — para usar as palavras verdadeiras do jornalismo sério — são reforços. E reforços são mandados para as guerras quando os exércitos estão perdendo essas guerras. Mas nossos meninos e meninas nos jornais e nas emissoras de TV estão falando em ’surges’ sem atribuir isso ao Pentágono! O Pentágono ganha de novo.
Enquanto isso, o ‘processo de paz’ desabou. Assim nossos líderes — nós gostamos de chamá-los de ‘jogadores-chave’ — estão tentando de novo. Assim o processo tem de ser colocado ‘nos trilhos’. Era um trem, como vocês notaram. Os vagões tinham saído dos trilhos. E assim o trem tem de ser posto de novo ‘nos trilhos’. Foi o governo Clinton o primeiro a usar a frase, depois os israelenses, depois a BBC. Mas havia um problema quando o ‘processo de paz’ foi colocado de novo ‘nos trilhos’ — e ainda assim não andou. E então produzimos o ‘mapa do caminho’ — tocado por um quarteto liderado pelo nosso amigo de Deus, Tony Blair, ao qual — em uma obscenidade da História — agora nos referemimos como ‘enviado da paz’.
Mas o ‘mapa do caminho’ não está funcionando. E agora, notem, o velho ‘processo de paz’ está de volta aos jornais e às telas de TV. Dois dias atrás, na CNN, um destes velhos chatos que os meninos e meninas da TV chamam de ‘experts’ — falarei deles em um momento — nos disse de novo que o ‘processo de paz’ está sendo colocado ‘nos trilhos’ por causa do início de ‘conversas indiretas’ entre israelenses e palestinos.
Senhoras e senhores, não são apenas clichês — isso é jornalismo absurdo. Não existe mais batalha entre o poder e a mídia. Através da linguagem, nós nos tornamos eles. Talvez o problema advenha de que a gente não pensa mais por conta própria por não ler livros. Os árabes ainda lêem livros — não estou falando aqui sobre a taxa de analfabetismo em países árabes — mas não estou certo de que no Ocidente a gente ainda leia livros. Eu geralmente mando mensagens pelo telefone e descubro que tenho de passar dez minutos repetindo à secretária algumas centenas de palavras. Elas não sabem soletrar.
Eu estava no avião um dia destes, voando de Paris a Beirute — um vôo de cerca de 3 horas e 45 minutos — e a mulher sentada ao lado estava lendo um livro em francês sobre a história da Segunda Guerra Mundial. Ela mudava de página depois de alguns segundos. Acabou o livro antes do pouso em Beirute! E de repente me dei conta de que ela não estava lendo o livro, estava surfando nas páginas! Tinha perdido a habilidade do que costumo chamar de ‘leitura profunda’. Meramente usamos as primeiras palavras que aparecem…
Deixe-me mostrar outro pedaço da covardia midiática que faz os meus dentes de 63 anos de idade rangerem depois de 34 anos comendo humus e tahina no Oriente Médio.
Somos informados, em tantas análises, que precisamos lidar no Oriente Médio com ‘narrativas que competem’. Que meigo. Não há justiça, nem injustiça, apenas algumas pessoas que nos contam histórias diferentes. ‘Narrativas que competem’ agora aparece regularmente na imprensa britânica. A frase é uma espécie — ou subespécie — da falsa linguagem da antropologia. Nega a possibilidade de que um grupo de pessoas — no Oriente Médio, por exemplo — seja ocupado, enquanto outro grupo de pessoas promove a ocupação. Novamente, não há justiça, injustiça, não-opressão ou opressão, apenas amigáveis ‘narrativas que competem’, um jogo de futebol, se quiserem, um campo neutro já que os dois lados estão — não estão? — ‘em competição’. E os dois lados merecem tempo igual em todas as reportagens.
E assim uma ‘ocupação’ pode se tornar uma ‘disputa’. E assim um ‘muro’ pode se tornar uma ‘cerca’ ou uma ‘barreira de segurança’. E assim a colonização israelense de terra árabe contrária a todas as leis internacionais se torna ‘acampamentos’ ou ‘postos’ ou ‘vizinhanças judaicas’.
Vocês não vão se surpreender ao descobrir que foi Colin Powell, em seu estrelato sem poder no posto de secretário de Estado de George W. Bush, que disse a diplomatas americanos no Oriente Médio que eles deveriam se referir à terra ocupada dos palestinos como ‘terra disputada’ — o que foi bom o suficiente para a maior parte da mídia americana.
Fiquem de olho na ‘narrativa que compete’, senhoras e senhores. Não há ‘narrativas que competem’, naturalmente, entre os militares dos Estados Unidos e o talibã. Quando houver, no entanto, vocês saberão que o Ocidente perdeu. Mas vou dar um exemplo pessoal para demonstrar como as ‘narrativas que competem’ evaporam.
No ano passado, fiz uma palestra em Toronto para marcar os 95 anos do genocídio armênio de 1915, o assassinato em massa deliberado de um milhão e meio de cristãos armênios por milícias e pelo exército otomano da Turquia. Antes da minha palestra, fui entrevistado na tv canadense, a CTV, que também é dona do jornal Toronto Globe and Mail. Desde o início, notei que minha entrevistadora tinha um problema. O Canadá tem uma grande comunidade armênia. Mas Toronto também tem uma grande comunidade turca. E os turcos, como o Globe and Mail sempre diz, ‘negam calorosamente’ que tenha havido genocídio. E assim a entrevistadora chamou o genocídio de “massacres mortais”.
Naturalmente que notei este problema específico de cara. Ela não podia chamar os massacres de ‘genocídio’ porque a comunidade turca se sentiria ultrajada. Mas, igualmente, ela sentiu que ‘massacre’ sozinho — especialmente com as fotos cruéis que serviam de cenário no estúdio, de armênios mortos — não seria suficiente para definir um milhão e meio de seres humanos assassinados. Daí os ‘massacres mortais’. Que estranho!!! Se existem massacres ‘mortais’, existem massacres que não são ‘mortais’, nos quais as vítimas saem com vida? Foi tautologia ridícula.
No fim, contei este pequeno caso de covardia jornalística na palestra, para minha audiência armênia, na qual também havia executivos da CTV. Uma hora depois de minha palestra, o armênio que promoveu o encontro recebeu uma mensagem de texto de um repórter da CTV. “Cagar na CTV não tinha nada a ver”, o repórter reclamou. Duvido, pessoalmente, que a palavra ‘cagar’ seja usada na CTV. Mas ‘genocídio’ também não é. Foi assim que as ‘narrativas que competem’ explodiram.
Sim, o uso da linguagem do poder — de suas palavras e frases — é comum entre nós. Quantas vezes ouvi de repórteres ocidentais sobre ‘combatentes estrangeiros’ no Afeganistão? Eles estão se referindo, naturalmente, a vários grupos árabes que supostamente ajudam o talibã. Ouvimos a mesma história no Iraque. Sauditas, jordanianos, palestinos, combatentes chechenos, naturalmente. Os generais os chamavam de ‘combatentes estrangeiros’. E assim, imediatamente, fizemos o mesmo. Chamá-los de ‘combatentes estrangeiros’ significava que são uma força de invasão. Mas nunca — nunca — ouvi uma estação de TV ocidental se referir ao fato de que existem pelo menos 150 mil ‘combatentes estrangeiros’ no Afeganistão. E que a maioria deles, senhoras e senhores, veste uniformes dos Estados Unidos e da Otan!
Da mesma forma, a frase perniciosa ‘Af-Pak’ — racista e politicamente desonesta como é — é usada por repórteres quando foi originalmente uma criação do Departamento de Estado, no dia em que Richard Holbrooke foi indicado mediador dos Estados Unidos no Afeganistão e no Paquistão. Mas a frase evita o uso da palavra ‘Índia’, cuja influência no Afeganistão e cuja presença no Afeganistão é parte vital da história. Além disso, ‘Af-Pak’ — ao apagar a Índia — eficazmente apaga toda a crise de Kashmir do conflito no sudeste da Ásia. E assim o Paquistão ficou sem qualquer papel na política dos Estados Unidos para Kashmir — afinal, Holbrooke foi nomeado para o ‘Af-Pak’, especificamente proibido de discutir Kashmir. E assim a frase ‘Af-Pak’, que nega totalmente a tragédia do Kashmir — muitas ‘narrativas que competem’, quem sabe? — significa que quando nós jornalistas usamos a mesma frase, ‘Af-Pak’ — que com certeza foi criada para nós — estamos fazendo o trabalho do Departamento de Estado americano.
Agora olhemos para a História. Nossos leitores amam História. Mais que tudo, eles amam a Segunda Guerra Mundial. Em 2003, George W. Bush pensou que era Churchill e George W. Bush. Na verdade, Bush gastou a guerra do Vietnã protegendo os céus do Texas dos vietcongs [Nota do Viomundo: Durante a guerra do Vietnã, Bush filho evitou sua convocação servindo à Força Aérea americana em uma base do Texas].
Mas agora, em 2003, Bush estava enfrentando os ‘apaziguadores’ que não queriam guerra com o Saddam que era, naturalmente, o “Hitler do [rio] Tigre”. Os ‘apaziguadores’ eram os britânicos que não queriam enfrentar a Alemanha nazista em 1938. Blair, naturalmente, também experimentou a casaca de Churchill. Ele não era ‘apaziguador’. Os Estados Unidos eram os aliados mais antigo do Reino Unido — Blair proclamou — e Bush e Blair lembraram aos jornalistas que os Estados Unidos estavam ombro a ombra com o Reino Unido quando este precisou de ajuda, em 1940.
Mas nada disso era verdade.
O mais antigo aliado do Reino Unido não foram os Estados Unidos. Foi Portugal, um estado fascista que ficou neutro durante a Segunda Guerra. Somente meu jornal, o Independent, notou isso.
Nem os Estados Unidos lutaram ao lado do Reino Unido na hora que os britânicos precisaram, em 1940, quando Hitler ameaçou invasão e a força aérea alemã bombardeou Londres. Não, em 1940 os Estados Unidos aproveitavam um período lucrativo de neutralidade — e não se juntaram à guerra do Reino Unido a não ser depois que o Japão atacou a base de Pearl Harbor em dezembro de 1941. Doeu!
Em 1956, li outro dia, Eden chamou Nasser de ‘Mussolini do Nilo’. Um erro. Nasser era amado pelos árabes, não odiado como Mussolini era pela maioria dos africanos, especialmente os líbios árabes. O paralelo com Mussolini não foi questionado pela mídia britânica. E todos sabemos o que aconteceu em Suez em 1956.
[Nota do Viomundo: Anthony Eden foi ministro britânico das Relações Exteriores; Gamal Abdel Nasser, líder nacionalista do Egito; em 1956 Nasser nacionalizou o canal de Suez, ao que se seguiu um ataque militar de Reino Unido, França e Israel, que só fracassou politicamente por pressão de Estados Unidos e União Soviética]
Sim, quando se trata de História, nós jornalistas simplesmente deixamos que presidentes e primeiros-ministros nos dêem um balão.
Hoje, no momento em que estrangeiros tentam levar comida e combustível pelo mar a palestinos famintos em Gaza, nós jornalistas deveríamos relembrar nossos telespectadores e leitores de um dia faz-tempo quando os Estados Unidos e o Reino Unido sairam em socorro de um povo cercado, levando comida e combustível — foi assim que alguns de nossos próprios militares morreram — para uma população faminta.
Aquela população tinha sido cercada por uma cerca construída por um exército brutal que queria torná-los submissos pela fome. O exército era o russo. A cidade era Berlim. O muro viria mais tarde. O povo ajudado tinha sido nosso inimigo há apenas três anos. Ainda assim fizemos uma ponte-aérea para salvá-los. Agora olhem para Gaza. Que jornalista ocidental — e amamos paralelos históricos — já mencionou Berlim de 1948 no contexto de Gaza?
Olhem para exemplos mais recentes. Saddam tinha ‘armas de destruição em massa’ — dá para encaixar ‘WMD’ numa manchete — mas naturalmente, ele não tinha e a imprensa americana passou por momentos embaraçosos de auto-condenação. Como pudemos ser enganados, o New York Times se perguntou? O jornal concluiu que não tinha desafiado suficientemente o governo Bush.
E agora o mesmo jornal está suavemente — muito suavemente — batendo os bumbos de guerra no Irã. O Irã está trabalhando com ‘WMD’. E depois da guerra, se houver guerra, haverá de novo a auto-condenação, se não houver projetos de armas nucleares no Irã.
Ainda assim o lado mais perigoso de nosso uso da semântica de guerra, nosso uso das palavras do poder — embora não seja uma guerra, já que nós nos rendemos — é que isso nos isola de nossos telespectadores e leitores. Eles não são estúpidos. Eles entendem as palavras e, em muitos casos — temo — melhor que nós. Eles sabem que estamos afogando nosso vocabulário na linguagem dos generais e presidentes, das assim-chamadas elites, na arrogância dos experts do Brookings Institute, ou daqueles da Rand Corporation ou o que eu chamo de ‘tink thanks’. Então nós nos tornanos parte desta linguagem. Aqui estão, por exemplo, algumas palavras perigosas:
- power players
- ativismo
- atores não-estatais
- jogadores-chave
- jogadores geoestratégicos
- narrativas
- jogadores externos
- processo de paz
- soluções significativas
- Af-Pak
- agentes de mudanças (quem quer que sejam estas criaturas sinistras)
Não sou um convidado regular da Al Jazeera. Isso me dá liberdade para falar. Alguns anos atrás, quando Wadah Khanfar (agora diretor-geral da Al Jazeera) era o homem da emissora em Bagdá, os militares dos Estados Unidos começaram uma campanha de boatos contra o escritório de Wadah, alegando — mentirosamente — que a Al Jazeera fazia o jogo da Al Qaeda porque estava recebendo vídeos de ataques contra forças dos Estados Unidos. Fui a Fallujah para checar isso. Wadah estava 100% correto. A Al Qaeda estava entregando os vídeos de suas emboscadas sem qualquer aviso, colocando nas caixas de correio. Os americanos estavam mentindo. O Wadah, naturalmente, está pensando o que virá em seguida…
Bem, devo dizer a vocês, senhoras e senhores, que todas as ‘palavras perigosas’ que acabei de ler para vocês — de jogadores-chave a narrativas a processo de paz a Af-Pak — estão no programa de nove páginas da Al Jazeera para este fórum. Não estou condenando a Al Jazeera por isso, senhoras e senhores. Porque este vocabulário não é adotado como resultado de aliança política. É uma infecção da qual todos sofremos. Eu mesmo usei ‘processo de paz’ algumas vezes, embora entre aspas, o que não dá para fazer na TV, mas sim, é um contágio.
E quando usamos estas palavras nós nos tornamos aliados do poder e das elites que mandam no mundo sem medo de serem desafiadas pela mídia. A Al Jazeera fez mais que qualquer rede de televisão que conheço para desafiar a autoridade, tanto no Oriente Médio quanto no Ocidente. (Não estou usando ‘desafio’ como ‘problema’, mas como ‘enfrento muitos desafios’, dito pelo general McCrystal).
Como escapamos desta doença? Fiquem de olho nos corretores de ortografia de seus laptops, nos sonhos dos subeditores com palavras de uma sílaba, parem de usar a Wikipedia. E leiam livros, com páginas de papel, que significam leitura profunda. Livros de História, especialmente.
A Al Jazeera está fazendo uma boa cobertura da frota — o comboio de barcos — que vai a Gaza. Não acredito que sejam um bando de anti-israelenses. Penso que este comboio internacional está a caminho porque as pessoas a bordo dos navios — de todo o mundo — estão tentando fazer o que líderes supostamente humanitários deixaram de fazer. Estão levando comida e combustível e equipamento hospitalar para aqueles que sofrem. Em qualquer outro contexto, os Obamas e os Sarkozys e os Camerons estariam competindo para mandar fuzileiros navais, marinheiros reais ou forças francesas com ajuda humanitária — como Clinton fez na Somália. O divino Blair não acreditava em ‘intervenção’ humanitária em Kosovo e Serra Leoa?
Em circunstâncias normais, o Blair colocaria o pé sobre a fronteira. Mas não. Não ousamos ofender Israel. E assim pessoas comuns estão tentando fazer o que os líderes não fizeram. Os líderes fracassaram. E a mídia? Estamos mostrando imagens de documentários da ponte aérea que salvou Berlim? Ou das tentativas de Clinton de resgatar pessoas que morriam de fome na Somália ou da ‘intervenção’humanitária de Blair nos Balcãs, simplesmente para relembrar nossos leitores e telespectadores — e aqueles pessoas naqueles barcos — que isso é hipocrisia em escala maciça?
O diabo que estamos! Nós preferimos ‘narrativas que competem’. Poucos políticos querem que a viagem até Gaza seja completada — seja o seu fim bem sucedido, uma farsa ou trágico. Nós acreditamos no ‘processo de paz’, no ‘mapa do caminho’. Mantenham a ‘cerca’ em torno dos palestinos. Deixem os ‘jogadores-chave’ encontrar uma solução. Senhoras e senhores, não sou seu ‘key-speaker’ nesta manhã. Sou seu convidado e agradeço pela paciência que tiveram em me ouvir.
terça-feira, 25 de maio de 2010
EUA VÃO COLOCAR MAIS 1.200 SOLDADOS DA GUARDA NACIONAL NA FRONTEIRA COM O MÉXICO
A decisão foi tomada pelo presidente Barack Obama depois de um encontro com parlamentares democratas e republicanos, que, segundo relato The New York Times, teriam exigido que medidas de segurança mais rigorosas nas áreas de fronteira.
A medida também reflete a pressão política que Obama tem recebido de parlamentares democratas num momento em que se aproximam as eleições para renovar parte do Congresso.
Em especial porque seis que intensificam o controle à imigração estão em discussão no parlamento.
As tropas ficarão estacionadas nos quatro estados que fazem fronteira com o México durante um ano. Ainda não se sabe quando os soldados chegarão. Eles se juntarão a outros militares que já atuam na região para ajudar no combate ao tráfico de drogas.
O tema imigração é bastante sensível nos EUA, especialmente na área de fronteira.
Há poucos dias, a primeira-dama, Michelle Obama, ficou numa saia justa ao visitar uma escola primária e ser indagada por uma das estudantes por que o presidente Obama queria expulsar os estrangeiros sem documentos do país.
A cena foi exibida em todos os canais de TV.
Constrangida, Michelle disse que o governo não mandará embora ninguém que tenha os documentos em ordem.
A menina responde que a mãe dela não tem documentos.
Uma Michelle ainda mais constrangida diz que é preciso trabalhar para que o assunto seja resolvido.
O governo depois informou que as autoridades de imigração não iriam atrás da família da garota, que acabou virando símbolo ao verbalizar a preocupação de milhares de imigrantes ilegais que vieram fazer a vida nos EUA e se submetem aos trabalhos de remuneração mais baixa.
O grande problema na fronteira é o tráfico de pessoas, drogas e armas.
Gente de vários países da América Central continuam pagando os coiotes para entrar ilegalmente nos EUA.
Os coiotes são supostos guias que conhecem os pontos vulneráveis na fronteira entre os dois países.
Mas são, na verdade, integrantes de quadrilhas que fazem tráfico de todo tipo.
Hoje conversei com um equatoriano que já esteve trabalhando na região (não como coiote, registre-se).
Os relatos de quem já passou por lá são terríveis.
Em todo grupo que faz – ou tenta fazer – a travessia, pelo menos uma mulher é violentada pelos coiotes.
A história é antiga e já foi contada centenas de vezes.
Famílias que venderam tudo para entrar clandestinamente nos EUA são enganadas e largadas no deserto. Muitos morrem, são assassinados pelos próprios coiotes ou por milícias americanas que vigiam determinados ponto da fronteira e atiram para matar em quem tenta entrar em território americano.
É uma encrenca sem tamanho.
Clique aqui para ler a reportagem do New York Times.
A medida também reflete a pressão política que Obama tem recebido de parlamentares democratas num momento em que se aproximam as eleições para renovar parte do Congresso.
Em especial porque seis que intensificam o controle à imigração estão em discussão no parlamento.
As tropas ficarão estacionadas nos quatro estados que fazem fronteira com o México durante um ano. Ainda não se sabe quando os soldados chegarão. Eles se juntarão a outros militares que já atuam na região para ajudar no combate ao tráfico de drogas.
O tema imigração é bastante sensível nos EUA, especialmente na área de fronteira.
Há poucos dias, a primeira-dama, Michelle Obama, ficou numa saia justa ao visitar uma escola primária e ser indagada por uma das estudantes por que o presidente Obama queria expulsar os estrangeiros sem documentos do país.
A cena foi exibida em todos os canais de TV.
Constrangida, Michelle disse que o governo não mandará embora ninguém que tenha os documentos em ordem.
A menina responde que a mãe dela não tem documentos.
Uma Michelle ainda mais constrangida diz que é preciso trabalhar para que o assunto seja resolvido.
O governo depois informou que as autoridades de imigração não iriam atrás da família da garota, que acabou virando símbolo ao verbalizar a preocupação de milhares de imigrantes ilegais que vieram fazer a vida nos EUA e se submetem aos trabalhos de remuneração mais baixa.
O grande problema na fronteira é o tráfico de pessoas, drogas e armas.
Gente de vários países da América Central continuam pagando os coiotes para entrar ilegalmente nos EUA.
Os coiotes são supostos guias que conhecem os pontos vulneráveis na fronteira entre os dois países.
Mas são, na verdade, integrantes de quadrilhas que fazem tráfico de todo tipo.
Hoje conversei com um equatoriano que já esteve trabalhando na região (não como coiote, registre-se).
Os relatos de quem já passou por lá são terríveis.
Em todo grupo que faz – ou tenta fazer – a travessia, pelo menos uma mulher é violentada pelos coiotes.
A história é antiga e já foi contada centenas de vezes.
Famílias que venderam tudo para entrar clandestinamente nos EUA são enganadas e largadas no deserto. Muitos morrem, são assassinados pelos próprios coiotes ou por milícias americanas que vigiam determinados ponto da fronteira e atiram para matar em quem tenta entrar em território americano.
É uma encrenca sem tamanho.
Clique aqui para ler a reportagem do New York Times.
FACEBOOK UNDER ATACK
O Facebook começou a semana com destaque nos principais jornais e revistas americanos.
Capa da revista Time, matéria da inglesa The Economist e tema de debates em várias emissoras de rádio.
O motivo é a quebra de sigilo de informações pessoais dos associados.
Segundo as reportagens, o Facebook estaria negociando dados pessoais dos usuários a sites de comércio e teria alterado regras de privacidade que permitiu a divulgação de imagens e informações para outros integrantes.
A alteração provocou a fúria de milhares de usuários.
Movimentos contrários ao Facebook espalharam-se pela rede e um grupo até marcou para o próximo dia 31 um “suicídio”coletivo na rede (para cnhecer o site, clique aqui), para que os usuários deletem suas páginas.
Até agora há pouco, 15.763 pessoas haviam aderido ao apelo.
O site explica os motivos da iniciativa e alerta que não é fácil abandonar o Facebook, um site de relacionamentos divertido, agradável e...viciante.
Para os líderes do movimento, largar o Facebook é como tentar parar de fumar.
Provavelmente o “suicídio” coletivo libertará apenas alguns milhares de almas virtuais.
A maioria continuará conectada, fazendo novos amigos e vivendo, na rede, sua vida cibernética.
Ali, separados do mundo real pela tela do computador, qualquer um pode ser o que sempre quis.
Há críticas de todos os tipos ao Facebook.
A reportagem da revista Time perguntou a alguns dos usuários quanto tempo passam conectados ao site de relacionamentos.
Quatro, cinco, seis horas, o dia inteiro.
Muita gente não se desconecta.
Acessa o Facebook pelo celular.
O vício da internet não é novo.
Muitos pais conhecem o drama de filhos adolescentes que trocam o dia pela noite em salas de bate-papo.
Sem falar no resto da humanidade: pessoas solitárias, infelizes, supostamente incapazes de estabelecer redes verdadeiras de relacionamento.
Abri minha conta no facebook há alguns anos, mas só há poucos meses passei a frequentá-la com mais assiduidade.
Nunca tive orkut. Nem sei como é.
Mas abri uma conta no twitter e, no começo, achava estranho ver os amigos relatando, quase minuto a minuto, o que estavam fazendo.
Muitos, imagino, estão mesmo viciados.
Mas descobri que, assim com o Facebook, o twitter é uma ferramenta interessantíssima não só para manter contato com amigos e redescobrir pessoas, mas também como instrumento de trabalho.
Vale aquela história de usar com moderação.
Cada post novo aqui no blog vira uma chamada no Facebook e no twitter.
Quem me segue no twitter tem lá o link da post e pode ou não conferir o novo texto.
A mesma coisa no Facebook.
É como se fosse um atalho: não preciso ir até o blog ou o site.
Assuntos pré-selecionados estão à distância de um clic.
Mas cada um usa a ferramenta como quiser.
O fato é que o Facebook é uma potência.
Parece que, em algum momento nas próximas semanas, atingirá a marca dos 500 milhões de usuários.
Se fosse um país, seria o terceiro mais populoso do mundo, atrás apenas da China e da Índia.
O curioso é que, segundo dados do próprio Facebook, 28% dos usuários são maiores de 34 anos.
Mais alguns dados interessantes:
70% dos usuários do Facebook vivem fora dos Estados Unidos;
Apenas no mês de março, o site teve 117 milhões de acessos, contra 42 milhões do MySpace, 20 milhões do twitter e 14 milhões do Linkedln;
Os usuários do facebook compartilham mais de 25 bilhões de informações por mês.
Ao adicionar fotos não apenas nossas (provavelmente a informação mais íntima que o Facebook coleta, como frisa a reportagem da Time), mas também dos nossos amigos, as pessoas estão colocando 1 bilhão de imagens únicas por semana no site.
Atualmente o Facebook hospeda 48 bilhões de imagens, o que o torno a maior coleção de fotos do mundo.
O Facebook também nos permite exercitar nosso lado Big Brother, ver sem ser visto.
Assunto para sociólogos, antropólogos e outros ólogos explicarem nossa sociedade que, num mundo cada vez mais fronteiras (e também cada vez com mais fronteiras), opta por se isolar e brincar de Deus estalando o mouse como se fosse um chicote cibernético, escolhendo quem pode e quem não pode.
O jornalista da Time encerrou a reportagem de forma bem Big Brother, dizendo que era hora de checar se a ex-namorada havia colocado mais fotos no Facebook.
Eu vou lá fazer propaganda deste novo post.
E você?
Capa da revista Time, matéria da inglesa The Economist e tema de debates em várias emissoras de rádio.
O motivo é a quebra de sigilo de informações pessoais dos associados.
Segundo as reportagens, o Facebook estaria negociando dados pessoais dos usuários a sites de comércio e teria alterado regras de privacidade que permitiu a divulgação de imagens e informações para outros integrantes.
A alteração provocou a fúria de milhares de usuários.
Movimentos contrários ao Facebook espalharam-se pela rede e um grupo até marcou para o próximo dia 31 um “suicídio”coletivo na rede (para cnhecer o site, clique aqui), para que os usuários deletem suas páginas.
Até agora há pouco, 15.763 pessoas haviam aderido ao apelo.
O site explica os motivos da iniciativa e alerta que não é fácil abandonar o Facebook, um site de relacionamentos divertido, agradável e...viciante.
Para os líderes do movimento, largar o Facebook é como tentar parar de fumar.
Provavelmente o “suicídio” coletivo libertará apenas alguns milhares de almas virtuais.
A maioria continuará conectada, fazendo novos amigos e vivendo, na rede, sua vida cibernética.
Ali, separados do mundo real pela tela do computador, qualquer um pode ser o que sempre quis.
Há críticas de todos os tipos ao Facebook.
A reportagem da revista Time perguntou a alguns dos usuários quanto tempo passam conectados ao site de relacionamentos.
Quatro, cinco, seis horas, o dia inteiro.
Muita gente não se desconecta.
Acessa o Facebook pelo celular.
O vício da internet não é novo.
Muitos pais conhecem o drama de filhos adolescentes que trocam o dia pela noite em salas de bate-papo.
Sem falar no resto da humanidade: pessoas solitárias, infelizes, supostamente incapazes de estabelecer redes verdadeiras de relacionamento.
Abri minha conta no facebook há alguns anos, mas só há poucos meses passei a frequentá-la com mais assiduidade.
Nunca tive orkut. Nem sei como é.
Mas abri uma conta no twitter e, no começo, achava estranho ver os amigos relatando, quase minuto a minuto, o que estavam fazendo.
Muitos, imagino, estão mesmo viciados.
Mas descobri que, assim com o Facebook, o twitter é uma ferramenta interessantíssima não só para manter contato com amigos e redescobrir pessoas, mas também como instrumento de trabalho.
Vale aquela história de usar com moderação.
Cada post novo aqui no blog vira uma chamada no Facebook e no twitter.
Quem me segue no twitter tem lá o link da post e pode ou não conferir o novo texto.
A mesma coisa no Facebook.
É como se fosse um atalho: não preciso ir até o blog ou o site.
Assuntos pré-selecionados estão à distância de um clic.
Mas cada um usa a ferramenta como quiser.
O fato é que o Facebook é uma potência.
Parece que, em algum momento nas próximas semanas, atingirá a marca dos 500 milhões de usuários.
Se fosse um país, seria o terceiro mais populoso do mundo, atrás apenas da China e da Índia.
O curioso é que, segundo dados do próprio Facebook, 28% dos usuários são maiores de 34 anos.
Mais alguns dados interessantes:
70% dos usuários do Facebook vivem fora dos Estados Unidos;
Apenas no mês de março, o site teve 117 milhões de acessos, contra 42 milhões do MySpace, 20 milhões do twitter e 14 milhões do Linkedln;
Os usuários do facebook compartilham mais de 25 bilhões de informações por mês.
Ao adicionar fotos não apenas nossas (provavelmente a informação mais íntima que o Facebook coleta, como frisa a reportagem da Time), mas também dos nossos amigos, as pessoas estão colocando 1 bilhão de imagens únicas por semana no site.
Atualmente o Facebook hospeda 48 bilhões de imagens, o que o torno a maior coleção de fotos do mundo.
O Facebook também nos permite exercitar nosso lado Big Brother, ver sem ser visto.
Assunto para sociólogos, antropólogos e outros ólogos explicarem nossa sociedade que, num mundo cada vez mais fronteiras (e também cada vez com mais fronteiras), opta por se isolar e brincar de Deus estalando o mouse como se fosse um chicote cibernético, escolhendo quem pode e quem não pode.
O jornalista da Time encerrou a reportagem de forma bem Big Brother, dizendo que era hora de checar se a ex-namorada havia colocado mais fotos no Facebook.
Eu vou lá fazer propaganda deste novo post.
E você?
segunda-feira, 24 de maio de 2010
DEVE SER UM LUGAR FAMOSO...
Sábado pegamos um táxi para os lados da rua 11.
No caminho, passamos por uma praça bem arborizada.
Muitos ônibus em volta, estátuas, gramadões, turistas tirando fotos.
Comentei que deveria ser um lugar famoso, para atrair tanta gente.
RESPOSTA QUE RECEBI: Sim, é a Casa Branca...
No caminho, passamos por uma praça bem arborizada.
Muitos ônibus em volta, estátuas, gramadões, turistas tirando fotos.
Comentei que deveria ser um lugar famoso, para atrair tanta gente.
RESPOSTA QUE RECEBI: Sim, é a Casa Branca...
LOST - O GRANDE FINAL
Treze milhões de pessoas assistiram ao último episódio de Lost, exibido ontem à noite aqui nos Estados Unidos pela rede ABC.
Durante toda a semana, diversas reportagens em todos os jornais destacavam o fim do seriado e como os autores explicariam o emaranhado de fatos inexplicáveis que surgiram ao longo das seis temporadas.
Newsweek, Time, Wired, The New Yorker, The New York Times e Washington Post foram apenas algumas das publicações que dedicaram espaço ao seriado e entrevistas com os criadores e produtores do show.
A Wired chegou a publicar uma conversa entre os dois produtores e um físico.
A revista The New Yorker dedicou oito páginas ao sujeito que fez a trilha sonora do seriado, Michael Giacchino (um trecho da reportagem pode ser lido aqui. Quem quiser mais tem que ser assinante).
Só comecei a assistir Lost quando já havia três temporadas do seriado disponíveis em DVD.
Ainda estava em Brasília, em 2007.
Vi um trecho de um dos episódios inciais, domingo à noite, na Globo.
Versão dublada.
Não me animei a ver.
Com o tempo, passei a ouvir comentários entusiasmados.
Depois aluguei na locadora e foi vício instantâneo.
Com a mudança para Angola, assistimos a quarta e a quinta temporadas aos pedaços.
Cada um que viajava ao Brasil, comprava os DVDs.
Agora que o seriado acabou, imagino que os DVDs estejam disponíveis nas lojas em alguns dias.
Com um último episódio de duas horas e meia.
Durante toda a semana, diversas reportagens em todos os jornais destacavam o fim do seriado e como os autores explicariam o emaranhado de fatos inexplicáveis que surgiram ao longo das seis temporadas.
Newsweek, Time, Wired, The New Yorker, The New York Times e Washington Post foram apenas algumas das publicações que dedicaram espaço ao seriado e entrevistas com os criadores e produtores do show.
A Wired chegou a publicar uma conversa entre os dois produtores e um físico.
A revista The New Yorker dedicou oito páginas ao sujeito que fez a trilha sonora do seriado, Michael Giacchino (um trecho da reportagem pode ser lido aqui. Quem quiser mais tem que ser assinante).
Só comecei a assistir Lost quando já havia três temporadas do seriado disponíveis em DVD.
Ainda estava em Brasília, em 2007.
Vi um trecho de um dos episódios inciais, domingo à noite, na Globo.
Versão dublada.
Não me animei a ver.
Com o tempo, passei a ouvir comentários entusiasmados.
Depois aluguei na locadora e foi vício instantâneo.
Com a mudança para Angola, assistimos a quarta e a quinta temporadas aos pedaços.
Cada um que viajava ao Brasil, comprava os DVDs.
Agora que o seriado acabou, imagino que os DVDs estejam disponíveis nas lojas em alguns dias.
Com um último episódio de duas horas e meia.
O DIA EM QUE MOSTREI O DEDO PARA O PRESIDENTE GEORGE W. BUSH
Foi em janeiro de 2001.
A convite do governo americano.
Os EUA têm um programa chamado International Visitors.
Todos os anos, funcionários do Departamento de Estado lotados nas embaixadas americanas ao redor do mundo indicam profissionais das mais diversas áreas para um programa de visitas aos EUA.
Ninguém (pelo menos na minha época) se habilita ao programa.
É sempre indicado por alguém da embaixada americana.
O objetivo do programa, que possui (ou possuía) recursos assegurados no orçamento federal, é permitir que profissionais de outros países tenham a sua própria visão dos Estados Unidos.
Sem filtros, em contato direto com profissionais, acadêmicos, militantes de ONGs, funcionários de governo americano.
O programa paga a passagem, hospedagem e alimentação dos convidados.
Um guia, que serve por vezes de intérprete, acompanha os visitantes durante os cerca de 20 dias do programa.
Quem recebe o convite para vir aos EUA escolhe os temas que gostaria de discutir, pessoas que gostaria de encontrar.
A partir daí, os responsáveis pelo programa tratam de localizar as pessoas, agendar as entrevistas e fazer os encontros acontecerem.
Em geral, os convidados são levados a quatro ou cinco capitais americanas.
No meu caso, fui – com outros dois colegas jornalistas – a Washington, Austin, Seattle e San Diego.
A chegada a Washington teve um quê de inusitado.
Estávamos na capital americana em janeiro de 2001, no dia em que George W. Bush foi empossado para o primeiro mandato.
Eu e um dos colegas resolvemos dar uma volta pelos arredores do hotel, que ficava perto do Dupont Circle.
Fazia frio e uma chuva fina começava a cair.
Quando chegamos ao Dupont Circle, vimos uma manifestação.
Pessoas fantasiadas de bananas carregando cartazes escritos “Banana Republic”, numa alusão à confusão eleitoral daquele ano, em que a decisão final sobre o vencedor das eleições levou semanas e o resultado acabou sendo resolvido pela Suprema Corte.
Clima de descontração, estudantes, muita gente fantasiada.
Tiramos fotos.
De repente os manifestantes começaram a se movimentar. E lá fomos nós atrás.
Meia hora depois, haviamos chegado à Pensilvania Avenue e, junto com os manifestantes, ocupamos lugares em uma das arquibancadas montadas ao longo da avenida.
Bom, descobrimos ali que havíamos nos juntado a uma passeata contra George W. Bush.
Na avenida, carros e mais carros passavam a caminho da Casa Branca e do Capitólio.
Limosines de perder a conta.
Vez por outra, alguém abria uma janela e acenava para a multidão.
Os lugares nas arquibancadas eram pagos.
Mas na véspera da posse, segundo me disseram ali, advogados entraram com uma ação na Justiça e conseguiram franquear algumas arquibancadas ao público.
Ao meu lado, estudantes furiosos com a volta dos republicanos ao poder gritavam palavras de ordem contra Bush e estendiam os dedos médios para os carros que passavam, naquele gesto universalmente conhecido e que deixava claro o que pensavam do novo presidente.
Depois de uma meia hora no meio dos estudantes, acabei também me empolgando e passei, também eu, a fazer o gesto para os republicanos.
Depois fiquei pensando se aquilo tudo não era um teste.
Será que eu estaria sendo filmado e seria expulso do país antes de chegar ao hotel?
Bom, nada aconteceu.
Apesar dos nossos protestos, Bush tomou posse, a viagem foi ótima e cá estou de volta, quase 10 anos depois.
Mas sempre me lembro daquele dia.
O dia em que mostrei o dedo para o presidente Bush numa viagem financiada pelo tio Sam.
A convite do governo americano.
Os EUA têm um programa chamado International Visitors.
Todos os anos, funcionários do Departamento de Estado lotados nas embaixadas americanas ao redor do mundo indicam profissionais das mais diversas áreas para um programa de visitas aos EUA.
Ninguém (pelo menos na minha época) se habilita ao programa.
É sempre indicado por alguém da embaixada americana.
O objetivo do programa, que possui (ou possuía) recursos assegurados no orçamento federal, é permitir que profissionais de outros países tenham a sua própria visão dos Estados Unidos.
Sem filtros, em contato direto com profissionais, acadêmicos, militantes de ONGs, funcionários de governo americano.
O programa paga a passagem, hospedagem e alimentação dos convidados.
Um guia, que serve por vezes de intérprete, acompanha os visitantes durante os cerca de 20 dias do programa.
Quem recebe o convite para vir aos EUA escolhe os temas que gostaria de discutir, pessoas que gostaria de encontrar.
A partir daí, os responsáveis pelo programa tratam de localizar as pessoas, agendar as entrevistas e fazer os encontros acontecerem.
Em geral, os convidados são levados a quatro ou cinco capitais americanas.
No meu caso, fui – com outros dois colegas jornalistas – a Washington, Austin, Seattle e San Diego.
A chegada a Washington teve um quê de inusitado.
Estávamos na capital americana em janeiro de 2001, no dia em que George W. Bush foi empossado para o primeiro mandato.
Eu e um dos colegas resolvemos dar uma volta pelos arredores do hotel, que ficava perto do Dupont Circle.
Fazia frio e uma chuva fina começava a cair.
Quando chegamos ao Dupont Circle, vimos uma manifestação.
Pessoas fantasiadas de bananas carregando cartazes escritos “Banana Republic”, numa alusão à confusão eleitoral daquele ano, em que a decisão final sobre o vencedor das eleições levou semanas e o resultado acabou sendo resolvido pela Suprema Corte.
Clima de descontração, estudantes, muita gente fantasiada.
Tiramos fotos.
De repente os manifestantes começaram a se movimentar. E lá fomos nós atrás.
Meia hora depois, haviamos chegado à Pensilvania Avenue e, junto com os manifestantes, ocupamos lugares em uma das arquibancadas montadas ao longo da avenida.
Bom, descobrimos ali que havíamos nos juntado a uma passeata contra George W. Bush.
Na avenida, carros e mais carros passavam a caminho da Casa Branca e do Capitólio.
Limosines de perder a conta.
Vez por outra, alguém abria uma janela e acenava para a multidão.
Os lugares nas arquibancadas eram pagos.
Mas na véspera da posse, segundo me disseram ali, advogados entraram com uma ação na Justiça e conseguiram franquear algumas arquibancadas ao público.
Ao meu lado, estudantes furiosos com a volta dos republicanos ao poder gritavam palavras de ordem contra Bush e estendiam os dedos médios para os carros que passavam, naquele gesto universalmente conhecido e que deixava claro o que pensavam do novo presidente.
Depois de uma meia hora no meio dos estudantes, acabei também me empolgando e passei, também eu, a fazer o gesto para os republicanos.
Depois fiquei pensando se aquilo tudo não era um teste.
Será que eu estaria sendo filmado e seria expulso do país antes de chegar ao hotel?
Bom, nada aconteceu.
Apesar dos nossos protestos, Bush tomou posse, a viagem foi ótima e cá estou de volta, quase 10 anos depois.
Mas sempre me lembro daquele dia.
O dia em que mostrei o dedo para o presidente Bush numa viagem financiada pelo tio Sam.
domingo, 23 de maio de 2010
CONTO MINÚSCULO
No dia em que ficou viúvo, ele decidiu mudar tudo.
No velório, usou calças jeans, uma camisa branca e óculos escuros – mais para proteger os olhos da claridade do que para esconder as lágrimas que não vieram.
Ninguém foi ao enterro.
Ele não avisou ninguém.
Queria a dor só para ele.
No velório, usou calças jeans, uma camisa branca e óculos escuros – mais para proteger os olhos da claridade do que para esconder as lágrimas que não vieram.
Ninguém foi ao enterro.
Ele não avisou ninguém.
Queria a dor só para ele.
O QUE OS EUA OFERECERAM AOS RUSSOS EM TROCA DO APOIO CONTRA O IRÃ
Segundo o The New York Times, os Estados Unidos fizeram concessões à Rússia em troca de apoio por sanções ao Irã.
Basicamente, suspenderam as restrições americanas que existiam contra a exportação de armas e transferência de tecnologia da Rússia ao Irã.
De acordo com o acerto entre os dois países, enquanto a resolução da ONU proibe várias vendas de armas ao Irã, a Rússia não será proibida de completar a venda de 300 mísseis antiaéreos à Teerã, um contrato que estava suspenso mas não cancelado.
O sofisticado sistema de defesa permitiria aos iranianos, segundo a reportagem, abater aviões americanos ou israelenses que tentassem bombardear suas instalações nucleares.
É assim que se faz acordos que supostamente buscam a paz.
Uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU tem lá seu valor de barganha.
Basicamente, suspenderam as restrições americanas que existiam contra a exportação de armas e transferência de tecnologia da Rússia ao Irã.
De acordo com o acerto entre os dois países, enquanto a resolução da ONU proibe várias vendas de armas ao Irã, a Rússia não será proibida de completar a venda de 300 mísseis antiaéreos à Teerã, um contrato que estava suspenso mas não cancelado.
O sofisticado sistema de defesa permitiria aos iranianos, segundo a reportagem, abater aviões americanos ou israelenses que tentassem bombardear suas instalações nucleares.
É assim que se faz acordos que supostamente buscam a paz.
Uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU tem lá seu valor de barganha.
UM LIVRO PARA CADA OCASIÃO
Livros para serem lidos em lugares e situações específicas.
Que livro você levaria para uma ilha deserta?
Qual leria enquanto se recupera de uma cirurgia?
Se você gosta de livros, clique aqui e leia o texto sobre o assunto publicado no Le Monde Diplomatique.
Que livro você levaria para uma ilha deserta?
Qual leria enquanto se recupera de uma cirurgia?
Se você gosta de livros, clique aqui e leia o texto sobre o assunto publicado no Le Monde Diplomatique.
E OS ROYALTIES DO PETRÓLEO?
Perguntar não ofende: por que a discussão sobre os royalties do petróleo sumiu do noticiário?
UM CASAMENTO EM MOÇAMBIQUE
Excelente relato do correspondente da TV Brasil na África, Eduardo Castro, sobre uma festa de casamento em Moçambique.
Para ler no blog do Eduardo, o ElefanteNews, clique aqui.
Para ler no blog do Eduardo, o ElefanteNews, clique aqui.
sábado, 22 de maio de 2010
SINGLE LADIES
Com apenas cinco anos de existência, o YouTube é o terceiro website mais acessado do mundo, atrás apenas do Google e do Facebook.
A cada dia, o site registra mais de dois bilhões de acessos.
Hoje, há mais vídeos sendo carregados a cada 60 dias no YouTube do que as três principais emissoras de TV americanas produziram em 60 anos.
Numa reportagem desta semana, a revista Time publicou uma matéria com uma seleção de 50 videos divertidos, como o que abre este post.
Para ler a reportagem e assistir aos outros 49 vídeos, clique aqui.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
US$ 500 PARA O PLANO DE SAÚDE, US$ 300 PARA A CLÍNICA E UMA FACADA NO BOLSO DO PACIENTE
Dia de retorno ao médico.
Consulta marcada para as 9h.
Só fomos atendidos às 10h40.
Uma hora e quarenta de espera para um atendimento de dez minutos.
O médico mexeu no pé, apertou aqui e ali, tirou o pulso do pé e disse que eu já não precisava usar as muletas, desde que usasse a tala no tornozelo.
Pediu para voltar daqui a cinco ou seis semanas.
Posso caminhar, mas pouco.
Preciso usar a tala mais seis semanas.
Só então poderei voltar a andar normalmente, correr.
O médico pediu para, antes de começar a correr, fazer bicicleta ergométrica, bem de leve, para ver a reação do pé.
Quando o médico começou a examinar o pé perguntei se era grave.
Ele me respondeu com outra pergunta.
MÉDICO: Você quer que eu faça parecer grave?
EU: Não, é que enquanto esperava vi esse quadro com os vários tipos de fratura e a minha está bem aqui, com um pino de ferro no tornozelo...
MÉDICO: Não, você não vai precisar de um pino.
Por uma hora e quarenta minutos de espera e dez minutos de consulta, a clínica disse que ia cobrar US$ 800 do plano.
Mas como fizemos o pagamento para pedir reembolso, nos cobraram “apenas” US$ 300.
Imagino que essa diferença é o que os planos normalmente embolsam.
E tem gente que é contra a reforma do sistema de saúde americano...
Consulta marcada para as 9h.
Só fomos atendidos às 10h40.
Uma hora e quarenta de espera para um atendimento de dez minutos.
O médico mexeu no pé, apertou aqui e ali, tirou o pulso do pé e disse que eu já não precisava usar as muletas, desde que usasse a tala no tornozelo.
Pediu para voltar daqui a cinco ou seis semanas.
Posso caminhar, mas pouco.
Preciso usar a tala mais seis semanas.
Só então poderei voltar a andar normalmente, correr.
O médico pediu para, antes de começar a correr, fazer bicicleta ergométrica, bem de leve, para ver a reação do pé.
Quando o médico começou a examinar o pé perguntei se era grave.
Ele me respondeu com outra pergunta.
MÉDICO: Você quer que eu faça parecer grave?
EU: Não, é que enquanto esperava vi esse quadro com os vários tipos de fratura e a minha está bem aqui, com um pino de ferro no tornozelo...
MÉDICO: Não, você não vai precisar de um pino.
Por uma hora e quarenta minutos de espera e dez minutos de consulta, a clínica disse que ia cobrar US$ 800 do plano.
Mas como fizemos o pagamento para pedir reembolso, nos cobraram “apenas” US$ 300.
Imagino que essa diferença é o que os planos normalmente embolsam.
E tem gente que é contra a reforma do sistema de saúde americano...
quinta-feira, 20 de maio de 2010
DECISÕES
Hoje completo uma semana de pé quebrado e de lugares não visitados em Washington.
A possibilidade do ócio prometia quatro semanas amenas, com tempo suficiente para ler os livros atrasados e assistir aos filmes a qualquer hora do dia.
Doce ilusão.
O ócio exige disciplina.
Quanto mais tempo disponível, menos consigo fazer tudo o que havia planejado.
Mas acho que sofro de déficit de concentração.
Com tempo disponível, já poderia ter escolhido o carro que vamos comprar, a operadora de celular, tv a cabo e internet.
Mas o ócio exige disciplina.
Achei que uma simples busca na internet resolveria tudo.
Outra doce ilusão.
Estou há horas tentando escolher o pacote de TV a cabo e internet para casa.
A dificuldade é encontrar o pacote mais adequado, que também inclua internet.
Cada empresa oferece centenas de canais.
Pacotes com os 120 canais mais vistos pelos americanos, com os 200 mais vistos, com os 250 mais vistos, mais os de esportes, mais os étnicos, com música, sem música, com jogos, canais infantis, para negros, democratas, republicanos, latinos, imigrantes.
Estou tentando um pacote que tenha a Globo e a Record.
Aparentemente apenas uma empresa oferece, mas é por satélite.
Quem tem diz que, no inverno, é um transtorno tirar a neve da antena.
Também não tem serviço de telefone nem internet.
Eu teria que contratar separadamente.
Na disputa pelos clientes, as empresas fazem promoção do tipo “Assine agora e ganhe um cartão Visa pré-pago no valor de US$ 200”.
Eu ficaria bem feliz com um pacote com meia dúzia de canais e uma internet rápida.
Não precisa nem de linha fixa.
As empresas de celular também oferecem diversos planos para se falar ilimitadamente.
Tinha curiosidade de comprar um iPhone, mas fui bombardeado com informações negativas a respeito do aparelho.
Também recebi uma série de reportagens com avaliações ruins sobre o desempenho das linhas da AT&T, que, segundo essas mesmas reportagens, interrompem as ligações com muita frequência.
Uma explicação seria o excesso de linhas para a rede e a dificuldade de roaming internacional, algo que outras empresas também enfrentam.
Uma jornalista que mora em Manhattan escreveu um artigo dizendo que batizou um pedaço do quarto dela, bem ao pé da cama, de Triângulo das Bermudas.
Ali, segundo ela, é o único lugar do apartamento em que o iPhone funciona.
E, ainda assim, com severas restrições.
Vasculho opções de celulares.
Os que gosto não funcionam bem.
Os que funcionam bem não fazem roaming internacional.
Como tudo na vida, não existe o aparelho perfeito.
As boas qualidades estão espalhadas por diversas empresas.
Passando pelos sites, vejo que são todos campos minados digitais, armadilhas à espreita de cada clic para sugar o número do meu cartão e me acorrentar ao universo do crédito fácil.
E daqui a pouco começa o drama de escolher o carro.
Um amigo com 20 anos de EUA nos alertou: "cuidado. A hora de comprar um carro é onde as pessoas mais se dão mal aqui".
E continuo sem celular, sem TV a cabo, sem internet e sem carro.
Preciso contratar alguém para tomar decisões no meu lugar.
A possibilidade do ócio prometia quatro semanas amenas, com tempo suficiente para ler os livros atrasados e assistir aos filmes a qualquer hora do dia.
Doce ilusão.
O ócio exige disciplina.
Quanto mais tempo disponível, menos consigo fazer tudo o que havia planejado.
Mas acho que sofro de déficit de concentração.
Com tempo disponível, já poderia ter escolhido o carro que vamos comprar, a operadora de celular, tv a cabo e internet.
Mas o ócio exige disciplina.
Achei que uma simples busca na internet resolveria tudo.
Outra doce ilusão.
Estou há horas tentando escolher o pacote de TV a cabo e internet para casa.
A dificuldade é encontrar o pacote mais adequado, que também inclua internet.
Cada empresa oferece centenas de canais.
Pacotes com os 120 canais mais vistos pelos americanos, com os 200 mais vistos, com os 250 mais vistos, mais os de esportes, mais os étnicos, com música, sem música, com jogos, canais infantis, para negros, democratas, republicanos, latinos, imigrantes.
Estou tentando um pacote que tenha a Globo e a Record.
Aparentemente apenas uma empresa oferece, mas é por satélite.
Quem tem diz que, no inverno, é um transtorno tirar a neve da antena.
Também não tem serviço de telefone nem internet.
Eu teria que contratar separadamente.
Na disputa pelos clientes, as empresas fazem promoção do tipo “Assine agora e ganhe um cartão Visa pré-pago no valor de US$ 200”.
Eu ficaria bem feliz com um pacote com meia dúzia de canais e uma internet rápida.
Não precisa nem de linha fixa.
As empresas de celular também oferecem diversos planos para se falar ilimitadamente.
Tinha curiosidade de comprar um iPhone, mas fui bombardeado com informações negativas a respeito do aparelho.
Também recebi uma série de reportagens com avaliações ruins sobre o desempenho das linhas da AT&T, que, segundo essas mesmas reportagens, interrompem as ligações com muita frequência.
Uma explicação seria o excesso de linhas para a rede e a dificuldade de roaming internacional, algo que outras empresas também enfrentam.
Uma jornalista que mora em Manhattan escreveu um artigo dizendo que batizou um pedaço do quarto dela, bem ao pé da cama, de Triângulo das Bermudas.
Ali, segundo ela, é o único lugar do apartamento em que o iPhone funciona.
E, ainda assim, com severas restrições.
Vasculho opções de celulares.
Os que gosto não funcionam bem.
Os que funcionam bem não fazem roaming internacional.
Como tudo na vida, não existe o aparelho perfeito.
As boas qualidades estão espalhadas por diversas empresas.
Passando pelos sites, vejo que são todos campos minados digitais, armadilhas à espreita de cada clic para sugar o número do meu cartão e me acorrentar ao universo do crédito fácil.
E daqui a pouco começa o drama de escolher o carro.
Um amigo com 20 anos de EUA nos alertou: "cuidado. A hora de comprar um carro é onde as pessoas mais se dão mal aqui".
E continuo sem celular, sem TV a cabo, sem internet e sem carro.
Preciso contratar alguém para tomar decisões no meu lugar.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
BRANCO OU PRETO?
A CNN fez uma reportagem baseada numa pesquisa com crianças em idade escolar na faixa dos 7 aos 10 anos.
A chamada na TV é: o que nossas crianças estão aprendendo sobre raça (ou algo similar)?
Pesquisadores colocavam diante das crianças um cartaz com desenhos de crianças com variações de cor que começam no branco, passam para um tom menos claro, latino, mulato e negro.
Depois fazem uma série de perguntas às crianças, do tipo:
Qual dessas crianças é a mais bonita?
As brancas respondiam que a mais bonita era a branca e a mais feia a negra.
Qual dessas crianças você acha boa e qual você acha ruim?
As brancas respondiam que a boa era a branca e a feia a ruim.
Depois perguntavam de qual criança gostariam de ser amigas.
As brancas respondiam que queriam ser amigas das brancas porque as negras eram chatas.
Quando as mesmas perguntas foram feitas às crianças negras, elas se identificavam sempre com a figura que tinha o tom de pele um pouco mais claro do que o dela.
Mas quando perguntavam de qual das crianças gostariam de ser amigas, um garoto respondeu que de todos eles.
Outra respondeu que isso não importava.
Quando os pesquisadores perguntavam o motivo, elas diziam que a cor da pele não era importante e nada significava.
A chamada na TV é: o que nossas crianças estão aprendendo sobre raça (ou algo similar)?
Pesquisadores colocavam diante das crianças um cartaz com desenhos de crianças com variações de cor que começam no branco, passam para um tom menos claro, latino, mulato e negro.
Depois fazem uma série de perguntas às crianças, do tipo:
Qual dessas crianças é a mais bonita?
As brancas respondiam que a mais bonita era a branca e a mais feia a negra.
Qual dessas crianças você acha boa e qual você acha ruim?
As brancas respondiam que a boa era a branca e a feia a ruim.
Depois perguntavam de qual criança gostariam de ser amigas.
As brancas respondiam que queriam ser amigas das brancas porque as negras eram chatas.
Quando as mesmas perguntas foram feitas às crianças negras, elas se identificavam sempre com a figura que tinha o tom de pele um pouco mais claro do que o dela.
Mas quando perguntavam de qual das crianças gostariam de ser amigas, um garoto respondeu que de todos eles.
Outra respondeu que isso não importava.
Quando os pesquisadores perguntavam o motivo, elas diziam que a cor da pele não era importante e nada significava.
terça-feira, 18 de maio de 2010
O CESANA BATEU AS ASAS POR AQUI
Hoje é um dia triste!
Ao abrir o e-mail, recebi a seguinte notícia:
“Caros,
Com imenso pesar escrevo a todos para avisar que o nosso amigo Cesana não se recuperou e o perdemos nesta madrugada por volta das 3h40.
Seu corpo será velado no...”
O e-mail foi enviado pelo André, um dos muitos amigos que acompanhavam a evolução do quadro clínico do Cesana desde que ele sofreu um derrame, no último dia 9.
Também recebi a notícia do derrame por e-mail, enviado pela Mercedes:
“Amigo, querido.
Notícias assustadoras, mas não de todo péssimas: nosso querido Cesana teve um derrame e passou por oito horas de cirurgia. Sua situação clínica não é ruim e está estabilizada.
Disse o tio, que é neuro, que os prognósticos são bons. Mas que, como é de se esperar, a situação é delicada.
Ele está na UTI do Hospital...”
Eu conheci o Marcos Cesana em 1992, quando dividia um apartamento com amigos na rua Itambé, em São Paulo.
Na época, eu ainda não sabia que o nome dele era Cesana.
Ele era conhecido por todo mundo como Botelho.
Todos pensavam que era o sobrenome dele.
Na verdade, Botelho era um apelido por causa de uma brincadeira que ele mesmo fazia.
Não lembro bem dos detalhes, mas era uma daquelas brincadeiras que os meninos aprendem na quinta série e passam a repeti-las para sempre. Ele costumava dizer para os colegas da faculdade: “e aí, Botelho...botelho pinto...botei-lo o pinto...”. E por aí vai naquele crescendo interminável das frases e palavras de duplo sentido feitas entre amigos.
Fazia tanto isso que acabou ganhando o apelido de Botelho.
O Cesana apareceu lá em casa porque era amigo de um amigo, o Tico.
Depois passamos a frequentar o mesmo grupo de amigos e tivemos uma afinidade imediata.
Como eu dividia o apartamento com um casal de amigos e éramos todos solteiros, na faixa dos 25, 26 anos, nossa casa era um ponto de encontro para aquela geração de jovens jornalistas que trabalhavam na Gazeta Mercantil.
Com pouco dinheiro para mobiliar a casa, nosso apartamento era espartano.
No meu quarto havia apenas um sofá de dois lugares, que eu havia ganhado da mãe de um amigo, e um colchão, no qual dormi por dois anos (mais por desorganização minha do que por necessidade, confesso).
Na sala, um conjunto de poltronas de plástico cor de salmão, usado, que ficou famoso pela completa ausência de estilo – mas que por isso mesmo tinha estilo.
Ali nos reuníamos, fazíamos festa, comíamos biscoito com recheio de chocolate e café, pizza.
Assistíamos a filmes ainda em VHS.
O Cesana às vezes aparecia sem avisar.
Mais de uma vez dormiu no sofá salmão da sala.
Íamos à locadora do bairro pegar algum filme para assistir enquanto comíamos biscoito e qualquer outra coisa que houvesse na cozinha.
Lembro de uma vez que alugamos Cinema Paradiso e ele passou 70% do filme chorando de soluçar, a ponto de incomodar os que também tentavam assistir.
Uma vez fomos com um grupo de amigos passsar o fim de semana em Peruíbe.
E ali surgiu nossa breve parceria musical, quando compusemos nossos três e únicos clássicos que ficaram famosos por irritar os amigos: “Sete homens e um coquinho”, “Peruíbe Love” e “Pronomes”, esta com uma melodia sutil e uma letra elaborada que dizia:
“Eu,
Tu,
Ele,
Nós,
Vós,
Eles”
A execução de “Pronomes” nunca durava menos de cinco minutos por causa das diversas variações de estilo.
O Cesana havia se formado em jornalismo, mas queria ser ator, escrever peças, roteiros.
Quando nos conhecemos, ele trabalhava como corretor de imóveis.
Estava sempre de bom-humor e era o centro das atenções onde chegava.
Em 1995, eu me mudei para Brasília e nosso contato diminuiu.
Mas eu conseguia encontrá-lo praticamente todas as vezes que voltava para lá.
Era uma alegria conseguir reunir os amigos para um almoço ou jantar.
Perdi o número das vezes em que me hospedei na casa do Cesana e da Mercedes nas minhas visitas a SP.
A última vez que encontrei o Cesana foi em 2008, quando fomos a São Paulo para o casamento de uma amiga.
Ele estava muito animado com as perspectivas de trabalho: peças, comerciais de televisão, roteiros, novelas, seriados.
Em 2008 mudamos para Angola e os contatos ficaram ainda mais esparsos.
A última vez que recebi notícias dele foi em 29 de maio de 2009.
Eu enviei um e-mail com o link de uma matéria que fiz para a TV.
O e-mail continua na minha caixa de mensagens e hoje eu o reli com emoção.
Ele me respondeu assim:
"Puta Junior que saudades de vc!!!!
Como é que está Angola?
Aqui vai tudo indo muito bem...
Sou pai novamente de um menino lindo chamado Leon, e meu filho com Mariana...vou te mandar umas fotos.
Ganhei em 2007 o roteiro de melhor filme em Gramado, o filme OLHO DE BOI.
Tenho feito um seriado que passa na Fox e que provavelmente deve passar aí chamado 9mm- São Paulo, estou fazendo uma peça de grande sucesso premiado com o APCA 2008 (a serie também foi) com a Denise Fraga chamada A ALMA BOA DE SETSUAN, voce ia gostar é uma peça do Brecht onde os deuses descem à terra para ver se conseguir achar uma alma que justifique a existencia de Deus.
...
...e estou escrevendo um roteiro de longa por encomenda de um conto do Sergio Sant'Anna, acho que vai ficar muito bom.
Como vai o cinema aí? Vc não se animaria em escrever alguma história que se pudesse passar nos dois paises, pensa aí...temos todo o tempo do mundo (grifo meu).
Abc CEsana esqueço BOTELHO”
Não paro de pensar na última frase do e-mail dele: “temos todo o tempo do mundo”.
Irônico!
O Cesana nunca me mandou as fotos do segundo filho, o Leon, e também nunca respondeu ao e-mail que escrevi na sequência do que ele me enviou.
Também nunca mais nos vimos, nunca mais nos escrevemos e nunca mais nos falamos.
Talvez porque tivéssemos todo o tempo do mundo.
Estive em São Paulo pela última vez há dois meses.
Tentei falar com o Cesana, mas não consegui.
Deixei recado no celular, mas não sei se ele chegou a ouvir.
Isso agora pouco importa.
O Cesana é uma daquelas pessoas que a gente esbarra pela vida e nos marcam.
Quem esbarrou nele sabe disso.
Não importava se a gente ficava sem se falar durante um ou dois anos.
Quando a gente se encontrava, era como se tivéssemos nos visto na véspera.
Depois que recebi a notícia, entrei na internet para ver o que encontrava do Cesana.
Selecionei uma atuação dele num episódio de “A Grande Família”.
Eu nem sabia dessa participação, em que o Cesana interpreta o Farofa, um amigo do Agostinho.
As duas cenas que consegui podem ser vistas aqui e aqui.
Hoje, no fim da manhã, depois que a arrumadeira saiu aqui do quarto do hotel, vi duas pequenas penas no chão, ao lado da cama.
Podem me dizer que caíram do travesseiro, mas ninguém vai me convencer de que não foi o Cesana que bateu as asas por aqui.
Ao abrir o e-mail, recebi a seguinte notícia:
“Caros,
Com imenso pesar escrevo a todos para avisar que o nosso amigo Cesana não se recuperou e o perdemos nesta madrugada por volta das 3h40.
Seu corpo será velado no...”
O e-mail foi enviado pelo André, um dos muitos amigos que acompanhavam a evolução do quadro clínico do Cesana desde que ele sofreu um derrame, no último dia 9.
Também recebi a notícia do derrame por e-mail, enviado pela Mercedes:
“Amigo, querido.
Notícias assustadoras, mas não de todo péssimas: nosso querido Cesana teve um derrame e passou por oito horas de cirurgia. Sua situação clínica não é ruim e está estabilizada.
Disse o tio, que é neuro, que os prognósticos são bons. Mas que, como é de se esperar, a situação é delicada.
Ele está na UTI do Hospital...”
Eu conheci o Marcos Cesana em 1992, quando dividia um apartamento com amigos na rua Itambé, em São Paulo.
Na época, eu ainda não sabia que o nome dele era Cesana.
Ele era conhecido por todo mundo como Botelho.
Todos pensavam que era o sobrenome dele.
Na verdade, Botelho era um apelido por causa de uma brincadeira que ele mesmo fazia.
Não lembro bem dos detalhes, mas era uma daquelas brincadeiras que os meninos aprendem na quinta série e passam a repeti-las para sempre. Ele costumava dizer para os colegas da faculdade: “e aí, Botelho...botelho pinto...botei-lo o pinto...”. E por aí vai naquele crescendo interminável das frases e palavras de duplo sentido feitas entre amigos.
Fazia tanto isso que acabou ganhando o apelido de Botelho.
O Cesana apareceu lá em casa porque era amigo de um amigo, o Tico.
Depois passamos a frequentar o mesmo grupo de amigos e tivemos uma afinidade imediata.
Como eu dividia o apartamento com um casal de amigos e éramos todos solteiros, na faixa dos 25, 26 anos, nossa casa era um ponto de encontro para aquela geração de jovens jornalistas que trabalhavam na Gazeta Mercantil.
Com pouco dinheiro para mobiliar a casa, nosso apartamento era espartano.
No meu quarto havia apenas um sofá de dois lugares, que eu havia ganhado da mãe de um amigo, e um colchão, no qual dormi por dois anos (mais por desorganização minha do que por necessidade, confesso).
Na sala, um conjunto de poltronas de plástico cor de salmão, usado, que ficou famoso pela completa ausência de estilo – mas que por isso mesmo tinha estilo.
Ali nos reuníamos, fazíamos festa, comíamos biscoito com recheio de chocolate e café, pizza.
Assistíamos a filmes ainda em VHS.
O Cesana às vezes aparecia sem avisar.
Mais de uma vez dormiu no sofá salmão da sala.
Íamos à locadora do bairro pegar algum filme para assistir enquanto comíamos biscoito e qualquer outra coisa que houvesse na cozinha.
Lembro de uma vez que alugamos Cinema Paradiso e ele passou 70% do filme chorando de soluçar, a ponto de incomodar os que também tentavam assistir.
Uma vez fomos com um grupo de amigos passsar o fim de semana em Peruíbe.
E ali surgiu nossa breve parceria musical, quando compusemos nossos três e únicos clássicos que ficaram famosos por irritar os amigos: “Sete homens e um coquinho”, “Peruíbe Love” e “Pronomes”, esta com uma melodia sutil e uma letra elaborada que dizia:
“Eu,
Tu,
Ele,
Nós,
Vós,
Eles”
A execução de “Pronomes” nunca durava menos de cinco minutos por causa das diversas variações de estilo.
O Cesana havia se formado em jornalismo, mas queria ser ator, escrever peças, roteiros.
Quando nos conhecemos, ele trabalhava como corretor de imóveis.
Estava sempre de bom-humor e era o centro das atenções onde chegava.
Em 1995, eu me mudei para Brasília e nosso contato diminuiu.
Mas eu conseguia encontrá-lo praticamente todas as vezes que voltava para lá.
Era uma alegria conseguir reunir os amigos para um almoço ou jantar.
Perdi o número das vezes em que me hospedei na casa do Cesana e da Mercedes nas minhas visitas a SP.
A última vez que encontrei o Cesana foi em 2008, quando fomos a São Paulo para o casamento de uma amiga.
Ele estava muito animado com as perspectivas de trabalho: peças, comerciais de televisão, roteiros, novelas, seriados.
Em 2008 mudamos para Angola e os contatos ficaram ainda mais esparsos.
A última vez que recebi notícias dele foi em 29 de maio de 2009.
Eu enviei um e-mail com o link de uma matéria que fiz para a TV.
O e-mail continua na minha caixa de mensagens e hoje eu o reli com emoção.
Ele me respondeu assim:
"Puta Junior que saudades de vc!!!!
Como é que está Angola?
Aqui vai tudo indo muito bem...
Sou pai novamente de um menino lindo chamado Leon, e meu filho com Mariana...vou te mandar umas fotos.
Ganhei em 2007 o roteiro de melhor filme em Gramado, o filme OLHO DE BOI.
Tenho feito um seriado que passa na Fox e que provavelmente deve passar aí chamado 9mm- São Paulo, estou fazendo uma peça de grande sucesso premiado com o APCA 2008 (a serie também foi) com a Denise Fraga chamada A ALMA BOA DE SETSUAN, voce ia gostar é uma peça do Brecht onde os deuses descem à terra para ver se conseguir achar uma alma que justifique a existencia de Deus.
...
...e estou escrevendo um roteiro de longa por encomenda de um conto do Sergio Sant'Anna, acho que vai ficar muito bom.
Como vai o cinema aí? Vc não se animaria em escrever alguma história que se pudesse passar nos dois paises, pensa aí...temos todo o tempo do mundo (grifo meu).
Abc CEsana esqueço BOTELHO”
Não paro de pensar na última frase do e-mail dele: “temos todo o tempo do mundo”.
Irônico!
O Cesana nunca me mandou as fotos do segundo filho, o Leon, e também nunca respondeu ao e-mail que escrevi na sequência do que ele me enviou.
Também nunca mais nos vimos, nunca mais nos escrevemos e nunca mais nos falamos.
Talvez porque tivéssemos todo o tempo do mundo.
Estive em São Paulo pela última vez há dois meses.
Tentei falar com o Cesana, mas não consegui.
Deixei recado no celular, mas não sei se ele chegou a ouvir.
Isso agora pouco importa.
O Cesana é uma daquelas pessoas que a gente esbarra pela vida e nos marcam.
Quem esbarrou nele sabe disso.
Não importava se a gente ficava sem se falar durante um ou dois anos.
Quando a gente se encontrava, era como se tivéssemos nos visto na véspera.
Depois que recebi a notícia, entrei na internet para ver o que encontrava do Cesana.
Selecionei uma atuação dele num episódio de “A Grande Família”.
Eu nem sabia dessa participação, em que o Cesana interpreta o Farofa, um amigo do Agostinho.
As duas cenas que consegui podem ser vistas aqui e aqui.
Hoje, no fim da manhã, depois que a arrumadeira saiu aqui do quarto do hotel, vi duas pequenas penas no chão, ao lado da cama.
Podem me dizer que caíram do travesseiro, mas ninguém vai me convencer de que não foi o Cesana que bateu as asas por aqui.
OS DIREITOS HUMANOS DE UNS E DE OUTROS
Artigo da jornalista Eliane Cantanhêde, colunista da Folha de S.Paulo.
"O presidente Lula não titubeou ao pegar a tesoura e cortar todas as polêmicas do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, o 3º PNDH. Ele sabia com quem estava mexendo.
O plano havia desagradado, e os cortes agora agradam, a um bom leque de setores: Forças Armadas, Igreja Católica, agronegócio, associações de mídia e os ministérios da Defesa e da Agricultura.
Se é assim, tudo indica que o mesmo plano, lançado em dezembro, havia agradado, e os cortes agora desagradam, a um bom leque de outros setores: os grupos anti-tortura e pró-Direitos Humanos, os movimentos feministas, o MST e seus congêneres.
Há uma profunda diferença entre esses dois blocos. O primeiro, que acabou vencendo a guerra e dobrando o governo, é mais articulado, mais independente em relação a Lula e tem um enorme peso. O segundo, o dos derrotados, também é articulado, mas, se era independente e muito crítico dos governos anteriores, se tornou simbioticamente aliado a Lula.
Então, o nosso presidente certamente pensou: por que desagradar quem preciso atrair para agradar quem está comigo de qualquer jeito, incondicionalmente? Pensou certo.
A reação contra a versão original do 3º PNDH foi virulenta, mas a reação contra o resultado final tem sido pífia, desmilinguida. A turma derrotada engoliu e digeriu bem as mudanças. Curioso? Nem tanto.
A versão final do plano recua:
1) na defesa do aborto, na retirada de símbolos religiosos de órgãos públicos;
2) na investigação de tortura na ditadura militar (até a referência à data, de 1964 a 1985, foi retirada);
3) no veto ao uso de nomes de presidentes-generais em ruas e praças públicas;
4) na identificação de prédios (como quartéis e outras instalações militares) onde houve tortura;
5) na criação de um "ranking" para definir as TVs e rádios que são boas ou não, com previsão de penalidades, desde multas até cassação de concessão;
6) nas mudanças em duas áreas de disputa entre os sem-terra e o agronegócio: mediação de conflitos e reintegração de posse na área rural. Ficou para o Congresso decidir. Se, e quando, sabe-se lá...
O governo diz que, entre o ideal e o possível, optou pelo possível. Mas bem poderia reconhecer que, entre os mais poderosos e os mais amigos, ficou com os mais poderosos. Bem naquela velha base de "quem pode pode"... "
Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília.
Para ler no site da Folha, clique aqui.
"O presidente Lula não titubeou ao pegar a tesoura e cortar todas as polêmicas do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, o 3º PNDH. Ele sabia com quem estava mexendo.
O plano havia desagradado, e os cortes agora agradam, a um bom leque de setores: Forças Armadas, Igreja Católica, agronegócio, associações de mídia e os ministérios da Defesa e da Agricultura.
Se é assim, tudo indica que o mesmo plano, lançado em dezembro, havia agradado, e os cortes agora desagradam, a um bom leque de outros setores: os grupos anti-tortura e pró-Direitos Humanos, os movimentos feministas, o MST e seus congêneres.
Há uma profunda diferença entre esses dois blocos. O primeiro, que acabou vencendo a guerra e dobrando o governo, é mais articulado, mais independente em relação a Lula e tem um enorme peso. O segundo, o dos derrotados, também é articulado, mas, se era independente e muito crítico dos governos anteriores, se tornou simbioticamente aliado a Lula.
Então, o nosso presidente certamente pensou: por que desagradar quem preciso atrair para agradar quem está comigo de qualquer jeito, incondicionalmente? Pensou certo.
A reação contra a versão original do 3º PNDH foi virulenta, mas a reação contra o resultado final tem sido pífia, desmilinguida. A turma derrotada engoliu e digeriu bem as mudanças. Curioso? Nem tanto.
A versão final do plano recua:
1) na defesa do aborto, na retirada de símbolos religiosos de órgãos públicos;
2) na investigação de tortura na ditadura militar (até a referência à data, de 1964 a 1985, foi retirada);
3) no veto ao uso de nomes de presidentes-generais em ruas e praças públicas;
4) na identificação de prédios (como quartéis e outras instalações militares) onde houve tortura;
5) na criação de um "ranking" para definir as TVs e rádios que são boas ou não, com previsão de penalidades, desde multas até cassação de concessão;
6) nas mudanças em duas áreas de disputa entre os sem-terra e o agronegócio: mediação de conflitos e reintegração de posse na área rural. Ficou para o Congresso decidir. Se, e quando, sabe-se lá...
O governo diz que, entre o ideal e o possível, optou pelo possível. Mas bem poderia reconhecer que, entre os mais poderosos e os mais amigos, ficou com os mais poderosos. Bem naquela velha base de "quem pode pode"... "
Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília.
Para ler no site da Folha, clique aqui.
COM VISTA PARA O KREMLIN
Vivian Oswald é repórter do jornal O Globo em Brasília.
Já foi correspondente em Moscou e colaboradora em Bruxelas.
Durante o período em que passou na Rússia, Vivian manteve o blog Com vista para o Kremlin.
O blog acabou em novembro do ano passado, mas continua no ar para quem quiser conhecer um pouco mais do país e das dificuldades de se trabalhar como jornalista.
A partir de hoje, Com vista para o Kremlin entra na relação de sítios que valem a pena.
Já foi correspondente em Moscou e colaboradora em Bruxelas.
Durante o período em que passou na Rússia, Vivian manteve o blog Com vista para o Kremlin.
O blog acabou em novembro do ano passado, mas continua no ar para quem quiser conhecer um pouco mais do país e das dificuldades de se trabalhar como jornalista.
A partir de hoje, Com vista para o Kremlin entra na relação de sítios que valem a pena.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
ISRAEL VETA NOAM CHOMSKY
Noam Chomsky faria palestra na Cisjordânia, mas Israel não concedeu visto de entrada.
Chomsky foi impedido de entrar na região por oficiais da imigração israelense.
Em Aman, capital da Jordânia, Chomsky disse em entrevista à agência de notícias Reuters que ele havia ido até a Allenby Bridge para atravessar o rio Jordão mas não recebeu autorização.
Chomsky, de 82 anos, ia à Cisjordânia a convite da universidade Birzeit e do jurista palestino Mustafa al-Barghouti.
Segundo relato da Reuters, depois de cinco horas respondendo a perguntas das autoridades israelense, Chomsky foi informado de que não seria autorizado a entrar em território ocupado e nem na Palestina e teria que retornar à Jordânia.
À Reuters, Chomsky fez a seguinte declaração:
"O problema não é meu, o problema é que é um insulto à universidade Birzeit, que está recebendo a informação do governo israelense que Israel insiste em decidir quem eles podem convidar para falar. Aconteceu de eu ser a pessoa impedida aqui, mas é declaração de Israel de que eles controlam quem a universidade de Birzeit pode convidar. Nunca ouvi nada parecido em relação a nenhuma outra universidade. E eu viajo o tempo todo."
O governo israelense disse que os oficiais da imigração se confundiram, pois acharam que ele também ia entrar em Israel e por isso estariam tomando providências para autorizar a entrada de Chomsky.
Chomsky é judeu.
Chomsky foi impedido de entrar na região por oficiais da imigração israelense.
Em Aman, capital da Jordânia, Chomsky disse em entrevista à agência de notícias Reuters que ele havia ido até a Allenby Bridge para atravessar o rio Jordão mas não recebeu autorização.
Chomsky, de 82 anos, ia à Cisjordânia a convite da universidade Birzeit e do jurista palestino Mustafa al-Barghouti.
Segundo relato da Reuters, depois de cinco horas respondendo a perguntas das autoridades israelense, Chomsky foi informado de que não seria autorizado a entrar em território ocupado e nem na Palestina e teria que retornar à Jordânia.
À Reuters, Chomsky fez a seguinte declaração:
"O problema não é meu, o problema é que é um insulto à universidade Birzeit, que está recebendo a informação do governo israelense que Israel insiste em decidir quem eles podem convidar para falar. Aconteceu de eu ser a pessoa impedida aqui, mas é declaração de Israel de que eles controlam quem a universidade de Birzeit pode convidar. Nunca ouvi nada parecido em relação a nenhuma outra universidade. E eu viajo o tempo todo."
O governo israelense disse que os oficiais da imigração se confundiram, pois acharam que ele também ia entrar em Israel e por isso estariam tomando providências para autorizar a entrada de Chomsky.
Chomsky é judeu.
DEU NO NEW YORK TIMES
Decisão do Irã de aceitar o envio de urânio para ser enriquecido na Turquia é manchete do site do The New York Times.
Com destaque para a participação brasileira.
O jornal informa que o acordo mina as chances do governo Obama de garantir apoio internacional para aprovar punições contra o Irã.
Segundo a notícia do The New York Times, se Obama não aceitar o acordo, vai parecer que ele está rejeitando um acerto similar que ele mesmo queria assinar há oito meses.
Para ler a notícia no original, clique aqui.
Com destaque para a participação brasileira.
O jornal informa que o acordo mina as chances do governo Obama de garantir apoio internacional para aprovar punições contra o Irã.
Segundo a notícia do The New York Times, se Obama não aceitar o acordo, vai parecer que ele está rejeitando um acerto similar que ele mesmo queria assinar há oito meses.
Para ler a notícia no original, clique aqui.
domingo, 16 de maio de 2010
IRÃ NUCLEAR
Agências de notícias brasileiras e internacionais informam que Irã, Brasil e Turquia chegaram a um acordo sobre a troca de combustíveis nucleares no Irã.
Detalhes, pelo visto, só amanhã.
Para ler na Aljazeera, clique aqui.
Detalhes, pelo visto, só amanhã.
Para ler na Aljazeera, clique aqui.
O BRASIL E O HAITI
O Brasil foi o primeiro país a contribuir para o Fundo de Reconstrução do Haiti.
A contribuição inicial é de US$ 55 milhões.
O Banco Mundial vai fiscalizar a aplicação dos recursos.
Leia mais aqui.
A contribuição inicial é de US$ 55 milhões.
O Banco Mundial vai fiscalizar a aplicação dos recursos.
Leia mais aqui.
EUA IRRITADOS COM POSTURA DO BRASIL EM RELAÇÃO AO IRÃ
Longa reportagem do The New York Times relata o incômodo do governo americano com a visita do presidente Lula ao Irã.
Nem todos gostam quando as peças no tabuleiro mudam de lugar.
Nem todos gostam quando as peças no tabuleiro mudam de lugar.
UM ENCONTRO COM SHIRAZ
Pouco antes de quebrar o pé na esquina da 30th com a M Street, havíamos saído para procurar uma ótica para trocar as lentes dos óculos.
Na primeira, não gostei das armações.
O atendimento também não foi dos mais acolhedores.
A caminho do hotel, entramos em outra ótica.
O vendedor era negro, perto dos 50 anos.
Perguntei se ele tinha algo parecido com a armação que eu já uso.
Ele mostra alguns modelos que não me entusiasmaram.
Enquanto busca outros modelos para mostrar, pergunta de onde somos.
Mostra entusiasmo quando dizemos que somos do Brasil.
Mais entusiasmo ainda quando dizemos que morávamos em Angola.
Ele diz que é do Zimbábue.
Seu nome é Shiraz, como a uva.
É casado com uma oficial de chancelaria suíça e tem filhos pequenos.
Já morou na América do Sul (agora não me lembro o país) e agora pensam em se mudar para Maputo.
Quando pergunto o motivo, ele diz:
SHIRAZ: Sou de um país do terceiro mundo. Então é importante voltar a viver lá para que os filhos conheçam a realidade.
Shiraz explica que os outros dois irmãos também moram fora do Zimbábue.
Os pais continuam a viver em Harare e conseguiram passar sem grande privações pela crise porque ele e os irmãos enviam dinheiro para sustentá-los.
Pergunto o que ele acha de Mugabe.
Shiraz tem uma postura nobre, mas faz uma careta de desaprovação ao ouvir o nome Mugabe e lembra que, ao assumir o poder, Mugabe disse que tornaria todos milionários.
SHIRAZ: Pois ele conseguiu. Há pouco tempo recebi uma nota de um bilhão de dólares zimbabuanos. Somos todos bilionários.
Na primeira, não gostei das armações.
O atendimento também não foi dos mais acolhedores.
A caminho do hotel, entramos em outra ótica.
O vendedor era negro, perto dos 50 anos.
Perguntei se ele tinha algo parecido com a armação que eu já uso.
Ele mostra alguns modelos que não me entusiasmaram.
Enquanto busca outros modelos para mostrar, pergunta de onde somos.
Mostra entusiasmo quando dizemos que somos do Brasil.
Mais entusiasmo ainda quando dizemos que morávamos em Angola.
Ele diz que é do Zimbábue.
Seu nome é Shiraz, como a uva.
É casado com uma oficial de chancelaria suíça e tem filhos pequenos.
Já morou na América do Sul (agora não me lembro o país) e agora pensam em se mudar para Maputo.
Quando pergunto o motivo, ele diz:
SHIRAZ: Sou de um país do terceiro mundo. Então é importante voltar a viver lá para que os filhos conheçam a realidade.
Shiraz explica que os outros dois irmãos também moram fora do Zimbábue.
Os pais continuam a viver em Harare e conseguiram passar sem grande privações pela crise porque ele e os irmãos enviam dinheiro para sustentá-los.
Pergunto o que ele acha de Mugabe.
Shiraz tem uma postura nobre, mas faz uma careta de desaprovação ao ouvir o nome Mugabe e lembra que, ao assumir o poder, Mugabe disse que tornaria todos milionários.
SHIRAZ: Pois ele conseguiu. Há pouco tempo recebi uma nota de um bilhão de dólares zimbabuanos. Somos todos bilionários.
DILMA NA FRENTE É DESTAQUE NO THE NEW YORK TIMES
A pesquisa Vox Populi em que Dilma Roussef aparece com 38% das intenções de voto, contra 35% para José Serra, foi destaque no The New York Times.
Leia aqui.
Leia aqui.
O IRÃ, O BRASIL, A PETROBRAS E OS EUA
Leio na Folha de S.Paulo que "a Petrobras suspendeu suas atividades no Irã depois de ter sido apontada pelo governo americano como uma das empresas estrangeiras que investiram mais de US$ 20 milhões no setor energético iraniano nos últimos cinco anos - o que a tornaria passível de retaliações em suas atividades nos EUA".
A informação acima está no último parágrafo de uma das matérias sobre a visita do presidente Lula ao Irã.
Explica muita coisa.
A informação acima está no último parágrafo de uma das matérias sobre a visita do presidente Lula ao Irã.
Explica muita coisa.
ElefanteNews
Entrou no ar o blog ElefanteNews, do correspondente da TV Brasil na África, Eduardo Castro.
Eduardo está baseado em Maputo, capital de Moçambique, e vai rodar o continente atrás de boas histórias.
As primeiras já foram ao ar.
É só conferir.
A partir de hoje, ElefanteNews entra na relação de sites que valem a pena.
Eduardo está baseado em Maputo, capital de Moçambique, e vai rodar o continente atrás de boas histórias.
As primeiras já foram ao ar.
É só conferir.
A partir de hoje, ElefanteNews entra na relação de sites que valem a pena.
sábado, 15 de maio de 2010
INFORMAÇÃO DEMAIS ATRAPALHA
Aqui no hotel recebemos o Washington Post todas as manhãs, mas ainda não consegui organizar meu tempo para leituras.
Na Barnes&Noble, uma profusão de títulos de revistas.
Publicações para todos os gostos.
Na impossibilidade de ler muita coisa, comecei a comprar The New Yorker (menos de US$ 6, contra R$ 35 em Brasília).
Também comprei um exemplar da Wired com o Bill Gates na capa.
Há muita coisa interessante, que só descobrirei aos poucos.
Informação demais também atrapalha.
Deixe-me voltar para The Great Gatsby.
Na Barnes&Noble, uma profusão de títulos de revistas.
Publicações para todos os gostos.
Na impossibilidade de ler muita coisa, comecei a comprar The New Yorker (menos de US$ 6, contra R$ 35 em Brasília).
Também comprei um exemplar da Wired com o Bill Gates na capa.
Há muita coisa interessante, que só descobrirei aos poucos.
Informação demais também atrapalha.
Deixe-me voltar para The Great Gatsby.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
E A CONTA?
A conta do hospital não temos nem ideia de quanto vai ser.
Passamos o número do seguro saúde, assinei uns formulários em inglês sem ler, outros papeis em ingles.
A moça do hospital disse que poderíamos pagar na hora ou esperar pelo plano de saúde.
Resolvemos esperar pelo plano de saúde.
Ouvimos a história do filho de alguém que deslocou o ombro e o hospital cobrou US$ 5.000,00.
Bom, no meu caso me deram dois comprimidos de Tylenol, fizeram um raio-x e me deram uma tala de silicone e um par de muletas.
Lá em Luanda eu resolvia isso com uns dois mil kwanzas.
Passamos o número do seguro saúde, assinei uns formulários em inglês sem ler, outros papeis em ingles.
A moça do hospital disse que poderíamos pagar na hora ou esperar pelo plano de saúde.
Resolvemos esperar pelo plano de saúde.
Ouvimos a história do filho de alguém que deslocou o ombro e o hospital cobrou US$ 5.000,00.
Bom, no meu caso me deram dois comprimidos de Tylenol, fizeram um raio-x e me deram uma tala de silicone e um par de muletas.
Lá em Luanda eu resolvia isso com uns dois mil kwanzas.
ENQUANTO ISSO, EM WASHINGTON...
Passei a tarde de ontem com um saco de gelo no tornozelo.
Mas o inchaço e a dor continuaram.
Um casal de amigos com quem jantamos ontem nos recomendou um hospital aqui perto do hotel.
Hoje cedo, o tornozelo continuou inchado e doendo.
Lá fomos para o George Washington University Hospital ser apresentados ao sistema de saúde americano.
A sala de espera da emergência estava praticamente vazia. Apenas uma mulher aguardava.
A moça da recepção pediu um documento de identificação, preencheu alguns dados no computador e me pediu para aguardar.
Outra moça veio e prendeu uma pulseira com meu nome.
Fui levado para uma salinha onde outra moça perguntou o que houve e pediu mais informações.
Em seguida, me levaram para a parte de dentro, da emergência.
Uma enfermeira me deu dois compridos para dor.
Chega o médico, faz um movimentos no pé, umas perguntas e diz que em seguida serei levado para os raios-x.
Esperas de uns dez minutos entre a vinda das enfermeiras, do médico, da moça dos raios-x.
Chega uma cadeira de rodas.
Peço para a enfermeira guiar com cuidado.
Ela ri e diz que os médicos costumam apostar corrida de cadeira de rodas pelos corredores.
Sou deixado numa ante-sala de raios-x com outros pacientes.
Um é idoso e está deitado numa maca.
Outros dois são mais jovens e têm agulhas espetadas no braço.
Um deles pergunta de onde sou.
Falo que do Brasil, mas que morava na África.
Ele diz que já esteve no Marrocos, na Itália e no Oriente Médio.
Onde no Oriente Médio, eu pergunto.
AMERICANO: No Golfo. Eu era da Marinha e participei da operação Tempestade no Deserto, em 1991.
Sou levado para tirar as chapas.
Volto para a sala de atendimento.
Uma enfermeira chega com uma tala de silicone e um par de muletas.
Diz que o médico já vem me explicar o que houve.
Quase duas horas depois de ter entrado no hospital, recebo o diagnóstico:
“Você teve uma fratura (osso quebrado – broken bone) no tornozelo. Isto causa dores locais e inchaço. Vai levar pelo menos quatro semanas para se recuperar.”
No relatório vem o nome e o telefone do consultório do ortopedista com quem devo me consultar na próxima sexta-feira.
Mas calma lá: como assim QUATRO SEMANAS para me recuperar?????
Acabei de chegar, precisamos comprar coisas, preciso caminhar por essa cidade esburacada, ir a TODOS os restaurantes, TODAS as lojas, TODAS as livrarias, todos...
Mas o inchaço e a dor continuaram.
Um casal de amigos com quem jantamos ontem nos recomendou um hospital aqui perto do hotel.
Hoje cedo, o tornozelo continuou inchado e doendo.
Lá fomos para o George Washington University Hospital ser apresentados ao sistema de saúde americano.
A sala de espera da emergência estava praticamente vazia. Apenas uma mulher aguardava.
A moça da recepção pediu um documento de identificação, preencheu alguns dados no computador e me pediu para aguardar.
Outra moça veio e prendeu uma pulseira com meu nome.
Fui levado para uma salinha onde outra moça perguntou o que houve e pediu mais informações.
Em seguida, me levaram para a parte de dentro, da emergência.
Uma enfermeira me deu dois compridos para dor.
Chega o médico, faz um movimentos no pé, umas perguntas e diz que em seguida serei levado para os raios-x.
Esperas de uns dez minutos entre a vinda das enfermeiras, do médico, da moça dos raios-x.
Chega uma cadeira de rodas.
Peço para a enfermeira guiar com cuidado.
Ela ri e diz que os médicos costumam apostar corrida de cadeira de rodas pelos corredores.
Sou deixado numa ante-sala de raios-x com outros pacientes.
Um é idoso e está deitado numa maca.
Outros dois são mais jovens e têm agulhas espetadas no braço.
Um deles pergunta de onde sou.
Falo que do Brasil, mas que morava na África.
Ele diz que já esteve no Marrocos, na Itália e no Oriente Médio.
Onde no Oriente Médio, eu pergunto.
AMERICANO: No Golfo. Eu era da Marinha e participei da operação Tempestade no Deserto, em 1991.
Sou levado para tirar as chapas.
Volto para a sala de atendimento.
Uma enfermeira chega com uma tala de silicone e um par de muletas.
Diz que o médico já vem me explicar o que houve.
Quase duas horas depois de ter entrado no hospital, recebo o diagnóstico:
“Você teve uma fratura (osso quebrado – broken bone) no tornozelo. Isto causa dores locais e inchaço. Vai levar pelo menos quatro semanas para se recuperar.”
No relatório vem o nome e o telefone do consultório do ortopedista com quem devo me consultar na próxima sexta-feira.
Mas calma lá: como assim QUATRO SEMANAS para me recuperar?????
Acabei de chegar, precisamos comprar coisas, preciso caminhar por essa cidade esburacada, ir a TODOS os restaurantes, TODAS as lojas, TODAS as livrarias, todos...
quinta-feira, 13 de maio de 2010
TORNOZELO MÍOPE
Acabei de torcer o pé na esquina da 30th com a M street.
Ao descer da calçada, pisei num desnível na rua - sim, eu sei, é horrível viver numa cidade com buracos na rua!.
Uma dor lancinante atravessou-me a alma!
Saí mancando até o restaurante sentindo todo o sangue do meu corpo dirigir-se para o tornozelo e formar um inchaço.
Agora estou no hotel com o pé enrolado num saco com gelo.
Há muitos anos aconteceu algo parecido.
Pisei num buraco e torci o pé.
Fiquei 20 dias engessado e fui, involuntariamente, lançado no universo das pessoas com necessidades especiais.
E percebi que nós, com necessidades especiais, vivemos num universo paralelo.
Elevadores com portas pesadas, escadas, calçadas esburacadas.
Aqui em Washington, muitos prédios têm pelo menos duas portas antes que se consiga chegar à recepção.
Sem falar nas portas giratórias.
E os sinais de trânsito?
Em algumas esquinas, apenas 10 segundos para o pedestre atravessar a rua.
Se portadores de necessidades especiais como eu não possuem marca para participar de uma paraolimpíada, correm o risco de morrerem atropelados por um caminhão da UPS ou da Coca-Cola.
Vamos ver se esse gelo diminui o inchaço.
Enquanto isso, estou pensando em processar o município.
Welcome to the USA!
Ao descer da calçada, pisei num desnível na rua - sim, eu sei, é horrível viver numa cidade com buracos na rua!.
Uma dor lancinante atravessou-me a alma!
Saí mancando até o restaurante sentindo todo o sangue do meu corpo dirigir-se para o tornozelo e formar um inchaço.
Agora estou no hotel com o pé enrolado num saco com gelo.
Há muitos anos aconteceu algo parecido.
Pisei num buraco e torci o pé.
Fiquei 20 dias engessado e fui, involuntariamente, lançado no universo das pessoas com necessidades especiais.
E percebi que nós, com necessidades especiais, vivemos num universo paralelo.
Elevadores com portas pesadas, escadas, calçadas esburacadas.
Aqui em Washington, muitos prédios têm pelo menos duas portas antes que se consiga chegar à recepção.
Sem falar nas portas giratórias.
E os sinais de trânsito?
Em algumas esquinas, apenas 10 segundos para o pedestre atravessar a rua.
Se portadores de necessidades especiais como eu não possuem marca para participar de uma paraolimpíada, correm o risco de morrerem atropelados por um caminhão da UPS ou da Coca-Cola.
Vamos ver se esse gelo diminui o inchaço.
Enquanto isso, estou pensando em processar o município.
Welcome to the USA!
REPORTAGENS DA TV BRASIL
A partir de hoje, links para reportagens da TV Brasil sobre África e alhures estão disponíveis no lado direito da tela.
E na relação de sites de visita frequente, um link que permite assistir, de graça, a todas as reportagens exibidas pelo Repórter Brasil, da TV Brasil.
E na relação de sites de visita frequente, um link que permite assistir, de graça, a todas as reportagens exibidas pelo Repórter Brasil, da TV Brasil.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
UM AEROGRAMA PARA LUANDA
Este post surgiu porque vi que o Aerograma, listado na relação de blogs com leitura assídua, aí do lado direito da página, fez um post chamado “Aerograma na Casa de Luanda”.
Cliquei para conferir.
Pois bem.
É sobre um texto da Migas, na Casa de Luanda (também listado aqui no Olhares Míopes), comentando sobre o fato de o Aerograma, blog da nobre estirpe criado pelo Afonso Loureiro, estar prestes a virar livro.
Faço aqui um mea-culpa pelo fato de não ter feito antes um post sobre o Aerograma, o livro.
A mudança de continente tumultuou um pouco as coisas nos últimos meses.
Espero agora corrigir tal falha.
Conheci o Afonso depois de ter criado o Diário da África.
Pesquisando outros blogs sobre África e Angola na internet, acabei descobrindo o Aerograma.
Os textos do Afonso impressionam pela sutileza e capacidade de descrever com tanta precisão a realidade de Luanda.
Pela capacidade de traduzir e transformar em palavras as situações mais improváveis e mais surreais que só fazem sentido para quem vive ou viveu em Luanda.
Para quem nunca esteve por lá, os textos poderiam facilmente ser enquadrados na categoria de ficção.
O Afonso é português e engenheiro.
Está em Luanda há pouco mais de dois anos (corrija-me se eu estiver errado).
Tivemos um único contato.
Depois de deixar comentários um no blog do outro e de trocar algumas mensagens, combinamos uma pizza entre o Aerograma, o Diário da África e a Casa de Luanda.
No Padrinho’s, perto da Sagrada Família.
Quando chegamos, o Afonso escrevia num caderninho (um moleskine, talvez?) em pé, em frente ao restaurante.
Antes que eu perguntasse o que escrevia, ele respondeu: “é o blog”.
Pegamos uma mesa lá dentro, mas mal conseguíamos nos escutar.
Numa mesa atrás, quatro ou seis homens (agora não me lembro direito) conversavam (será esta a palavra adequada?) aos berros.
Tomamos alguns finos, comemos uma pizza e combinamos de nos encontrar de novo.
Algo que nunca aconteceu.
Mas continuamos ligados pela blogosfera.
Olhos míopes aguardam ansiosos versão impressa do Aerograma.
Cliquei para conferir.
Pois bem.
É sobre um texto da Migas, na Casa de Luanda (também listado aqui no Olhares Míopes), comentando sobre o fato de o Aerograma, blog da nobre estirpe criado pelo Afonso Loureiro, estar prestes a virar livro.
Faço aqui um mea-culpa pelo fato de não ter feito antes um post sobre o Aerograma, o livro.
A mudança de continente tumultuou um pouco as coisas nos últimos meses.
Espero agora corrigir tal falha.
Conheci o Afonso depois de ter criado o Diário da África.
Pesquisando outros blogs sobre África e Angola na internet, acabei descobrindo o Aerograma.
Os textos do Afonso impressionam pela sutileza e capacidade de descrever com tanta precisão a realidade de Luanda.
Pela capacidade de traduzir e transformar em palavras as situações mais improváveis e mais surreais que só fazem sentido para quem vive ou viveu em Luanda.
Para quem nunca esteve por lá, os textos poderiam facilmente ser enquadrados na categoria de ficção.
O Afonso é português e engenheiro.
Está em Luanda há pouco mais de dois anos (corrija-me se eu estiver errado).
Tivemos um único contato.
Depois de deixar comentários um no blog do outro e de trocar algumas mensagens, combinamos uma pizza entre o Aerograma, o Diário da África e a Casa de Luanda.
No Padrinho’s, perto da Sagrada Família.
Quando chegamos, o Afonso escrevia num caderninho (um moleskine, talvez?) em pé, em frente ao restaurante.
Antes que eu perguntasse o que escrevia, ele respondeu: “é o blog”.
Pegamos uma mesa lá dentro, mas mal conseguíamos nos escutar.
Numa mesa atrás, quatro ou seis homens (agora não me lembro direito) conversavam (será esta a palavra adequada?) aos berros.
Tomamos alguns finos, comemos uma pizza e combinamos de nos encontrar de novo.
Algo que nunca aconteceu.
Mas continuamos ligados pela blogosfera.
Olhos míopes aguardam ansiosos versão impressa do Aerograma.
terça-feira, 11 de maio de 2010
BOLINHAS DE PAPEL
Ontem de manhã passei pela Starbucks da Barnes&Noble, que será um dos meus lugares preferidos enquanto estivermos aqui nos arredores da 29th com a M street.
Na mesa ao lado, um senhor oriental chega com um capuccino e um livro.
Minutos depois, o oriental reconhece um homem algumas mesas adiante.
O homem vem para a mesa do oriental e começam a conversar.
Pelo jeito da conversa, não se viam há alguns anos.
Depois de uns cinco minutos de conversa, os dois fecham os olhos e meditam.
O oriental pergunta para o outro homem se a meditação foi boa.
O homem responde que sim, mas diz que a meditação do oriental deve ter sido melhor porque ele estava sentado num banco, com espaço para cruzar as pernas.
Depois de mais alguns minutos de conversa, os dois começam um jogo.
O oriental fez um origami em formato de cinzeiro.
Fizeram pequenas bolinhas de papel e o homem começou a dar petelecos nas bolinhas na tentativa de lançá-las dentro do cinzeiro.
Errou todas.
O oriental acertou todas.
Repetiram a competição mais uma vez.
O oriental disse que tinha que ir.
Despediram-se e o oriental partiu.
Na mesa ao lado, um senhor oriental chega com um capuccino e um livro.
Minutos depois, o oriental reconhece um homem algumas mesas adiante.
O homem vem para a mesa do oriental e começam a conversar.
Pelo jeito da conversa, não se viam há alguns anos.
Depois de uns cinco minutos de conversa, os dois fecham os olhos e meditam.
O oriental pergunta para o outro homem se a meditação foi boa.
O homem responde que sim, mas diz que a meditação do oriental deve ter sido melhor porque ele estava sentado num banco, com espaço para cruzar as pernas.
Depois de mais alguns minutos de conversa, os dois começam um jogo.
O oriental fez um origami em formato de cinzeiro.
Fizeram pequenas bolinhas de papel e o homem começou a dar petelecos nas bolinhas na tentativa de lançá-las dentro do cinzeiro.
Errou todas.
O oriental acertou todas.
Repetiram a competição mais uma vez.
O oriental disse que tinha que ir.
Despediram-se e o oriental partiu.
EM BUSCA DE UMA CASA
Começamos a procurar casa.
Por alguma razão inexplicável, sinto-me bastante atraído pelo estilo três andares + basement.
A cozinha americana junto com a sala, uma lareira (que não pode ser usada por lei em Washington - depois explico) e um jardinzinho simpático nos fundos.
No primeiro andar, um quarto, muitos armários embutidos e banheiros.
No segundo, a suíte com mais armários embutidos e closet.
Mas o lugar que gosto mesmo é o porão.
É praticamente uma casa.
Tem quarto, banheiro, lavanderia.
Já identifiquei ali o local ideal para o escritório ou sala de TV.
Mas ainda estamos no início da procura.
Por alguma razão inexplicável, sinto-me bastante atraído pelo estilo três andares + basement.
A cozinha americana junto com a sala, uma lareira (que não pode ser usada por lei em Washington - depois explico) e um jardinzinho simpático nos fundos.
No primeiro andar, um quarto, muitos armários embutidos e banheiros.
No segundo, a suíte com mais armários embutidos e closet.
Mas o lugar que gosto mesmo é o porão.
É praticamente uma casa.
Tem quarto, banheiro, lavanderia.
Já identifiquei ali o local ideal para o escritório ou sala de TV.
Mas ainda estamos no início da procura.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
THE GREAT GATSBY
Ontem à tarde estive na Barnes&Noble, que fica a poucos quarteirões aqui do hotel.
A intenção era comprar The Lost Symbol.
Imaginei que haveria uma bancada apenas para o livro do Dan Brown.
Devo ter pegado um corredor errado e não encontrei o livro, mas dei de cara com The Great Gatsby, que eu deveria ter lido há uns 20 anos.
O livro começa assim:
"In my younger and more vulnerable years my father gave some advice that I've been turning over in my mind ever since.
'Whenever you feel like criticizing any one,' he told me, 'just remember that all the people in this world haven't had the advantages that you've had'".
Coloquei o livro embaixo do braço e larguei o Dan Brown para trás.
A intenção era comprar The Lost Symbol.
Imaginei que haveria uma bancada apenas para o livro do Dan Brown.
Devo ter pegado um corredor errado e não encontrei o livro, mas dei de cara com The Great Gatsby, que eu deveria ter lido há uns 20 anos.
O livro começa assim:
"In my younger and more vulnerable years my father gave some advice that I've been turning over in my mind ever since.
'Whenever you feel like criticizing any one,' he told me, 'just remember that all the people in this world haven't had the advantages that you've had'".
Coloquei o livro embaixo do braço e larguei o Dan Brown para trás.
A ESPERA
Nas últimas 24 horas recebi três notícias tristes:
1) um colega de trabalho morreu;
2) um amigo sofreu um derrame e está em coma induzido;
3) uma amiga está internada em estado grave.
Existe apenas uma explicação possível: os deuses só podem estar de sacanagem!
E só nos resta esperar.
1) um colega de trabalho morreu;
2) um amigo sofreu um derrame e está em coma induzido;
3) uma amiga está internada em estado grave.
Existe apenas uma explicação possível: os deuses só podem estar de sacanagem!
E só nos resta esperar.
UM PRIMEIRO OLHAR MÍOPE
Todo primeiro post de um blog deveria explicar o motivo da sua existência.
Ou pelo menos tentar.
É o que tentarei a partir de agora.
Hoje é o dia 10 de maio de 2010.
São 9h30 e estou no Starbucks da Barnes&Noble da M Street, em Georgetown.
Como a maioria das lojas só abre às 10h, faço hora para ir até a ótica encomendar novas lentes para os óculos.
Estranhamente, pelo menos para mim, minha miopia tem diminuído nos últimos anos.
Num processo de vista cansada reverso, não consigo mais ler com óculos.
Mas é pouco provável que a miopia desapareça.
Estará sempre aqui.
Daí surgiu a ideia de batizar o blog como Olhares Míopes.
Olhares míopes através de lentes que, supostamente, deveriam colocar as coisas nos eixos devidos.
Nosso primeiro endereço em Washington é num hotel em Georgetown, no fim da 29th street.
No coração de Georgetown, onde ficam os restaurantes e as lojas da M street.
Ficaremos aqui até encontrar uma casa.
Depois de dois anos na África, Washington será nossa base pelos próximos três anos.
Estão todos convidados a compartilhar meus olhares míopes.
Ou pelo menos tentar.
É o que tentarei a partir de agora.
Hoje é o dia 10 de maio de 2010.
São 9h30 e estou no Starbucks da Barnes&Noble da M Street, em Georgetown.
Como a maioria das lojas só abre às 10h, faço hora para ir até a ótica encomendar novas lentes para os óculos.
Estranhamente, pelo menos para mim, minha miopia tem diminuído nos últimos anos.
Num processo de vista cansada reverso, não consigo mais ler com óculos.
Mas é pouco provável que a miopia desapareça.
Estará sempre aqui.
Daí surgiu a ideia de batizar o blog como Olhares Míopes.
Olhares míopes através de lentes que, supostamente, deveriam colocar as coisas nos eixos devidos.
Nosso primeiro endereço em Washington é num hotel em Georgetown, no fim da 29th street.
No coração de Georgetown, onde ficam os restaurantes e as lojas da M street.
Ficaremos aqui até encontrar uma casa.
Depois de dois anos na África, Washington será nossa base pelos próximos três anos.
Estão todos convidados a compartilhar meus olhares míopes.
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